Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa

Meu nome, meu deserto: Hildeberto

Por: | 04/02/2024

Pensamentos Provisórios

Tenho dois irmãos de nome José. José Severino e José Lamartine. Tirante Ana Paula, a mais nova, minhas outras irmãs são todas Maria. Maria das Graças, Maria do Rosário e Maria Aparecida. O meu nome é o nome do meu pai. Hildeberto Barbosa de Araújo, acrescentando-se o termo “Filho”. O pai do meu pai, meu avô, chamava-se Manoel. Sua mãe, minha avó, chamava-se Joana. Diz a lenda que meu avô conheceu minha avó, primeiro, num sonho, insólito e idílico, e, só depois, na crua e concreta realidade. Meu avô era um homem simples, semi-alfabetizado, agricultor, criador de gado, plantava e negociava algodão. Donde tirou, portanto, o nome de seu rebento mais velho, que terminou sendo o meu, para meu espanto, raiva e desgosto? Sempre achei que as coisas não batiam. Meu nome era para ser também José. Quem sabe, José Augusto, José Barbosa, José Sebastião. Nunca este estranho, confuso e difícil “Hildeberto”. Nome que poucos escrevem e pronunciam corretamente; nome sem qualquer vínculo com os elementos de origem, as circunstâncias do lugar, o ethos de uma comunidade. Pois bem, roído pela curiosidade, fui atrás do enigma, e, certo dia, o desvendei. Fuçando coisas nos antigos armazéns de algodão de meu avô, deparei-me com uma caixa de remédio, fortificante alemão, onde estava escrito, em letras grandes e vermelhas, “Hildeberto”. Meu nome era o nome de um laboratório. Na etimologia da língua de origem, significa “brilhante no combate”. Mas nem isto compensou a tristeza de carregar este nome a vida inteira. Terminei me vingando de meu nome (literatura também é vingança!) no poema XVIII, de Ira de viver, que, aqui, transcrevo:

Pedro, Paulo, João, Maria, José,
tantos são os nomes e tantas vezes
ter um nome dói. Mais que dor,
ter um nome é ter um vasto abismo
cavado para sempre na memória.
Nome é cartorial rubrica do destino,
ao ser acompanha desde menino
até que se transmute em epitáfio
ou se apague no nada da cal tumular.
O meu, a mim, em nada me agrada
nem nada me diz de minha história.
Estupidamente fui cismado com
um teuto e laboratorial Hildeberto.
Apesar do étimo altivo e guerreiro,
cada letra do meu nome é um deserto.


FONTE: Facebook - Acesse

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