Rubens Pinto Lyra
Rubens Pinto Lyra
Rubens Pinto Lyra

VELHOS E NOVOS CARNAVAIS: MORAL, ECONOMIA E CONTRA- HEGEMONIA

Por: | 18/02/2024

 

Rubens Pinto Lyra (*)

Carnaval, loucura santa

desabrochar do corpo em rosa súbita,

chama, cometa, gargalhada, riso puro

o puro libertar-se da prisão

que cada um carrega na sua liberdade,

vigiada, medida, escriturada.

Carlos Drummond de Andrade, em Amar se aprende amando.


O carnaval como válvula de escape e instrumento de controle social

Os velhos carnavais persistiram com todo o seu glamour na maioria das

cidades brasileiras até o final da década de sessenta, com desfile de blocos e de foliões

nas suas principais artérias e bailes animadíssimos nos clubes, especialmente nos da

“alta sociedade”. Apenas no Rio e São Paulo existiam carnavais de massa. Era em uma

época onde prevalecia a moral tradicional, ensinada nos colégios religiosos, em geral

destinados aos mais remediados, onde se rezava todos os dias.

Esta moral inspirava-se no Catecismo da Doutrina Cristã do Papa Pio X, datado

de 1904 e destinado especialmente para a juventude, tendo sido adotado até o final da

década de 1950 pela Igreja Católica, no Brasil.

Nele está dito que “merece o inferno (o sofrimento “sem nenhum alívio”, por toda a

eternidade) quem tenha praticado um só pecado mortal.” Por exemplo, estaria sujeito a

esse castigo – por infligir o Nono Mandamento – quem desejar, ainda que fugazmente,

a mulher do próximo (1951, p. 15, 44 e 45).

Mas catecismos similares continuaram em vigor em muitas instituições religiosas, até

mesmo na década de oitenta, com padres e freiras alertando constantemente seus

pupilos dos riscos de padecer eternamente, sob o jugo de Satanás, caso cometessem

deslizes. Nesse

contexto, os carnavais propiciavam à juventude uma válvula de escape, ainda que

limitada, face à rigidez moral dominante. Neles se podia desfrutar de momentos

especiais de prazer, pelo que têm de contagiante a sua música e seu charme. E,

sobretudo, por ensejarem mais liberdade para a aproximação com o sexo oposto,

driblando-se, em meio aos confetes, serpentinas e aos inebriantes lança-perfumes a

sempre presente vigilância dos pais.


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