Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

ET SI TU N’EXISTAIS PAS

Por: | 27/05/2026


   Quem ama tenta salvar o outro da inexistência.

A bela canção de Joe Dassin sussurra isso há décadas, enquanto o mundo se ocupa de fabricar pressa, ruído e distrações. “Et si tu n’existais pas” não fala apenas da ausência de alguém. Fala do colapso silencioso do sentido.

    Existem pessoas que entram em nossas vidas e acendem uma lâmpada. Até então, os móveis estavam ali, as paredes continuavam de pé, o relógio seguia funcionando. Tudo existia. Mas nada tinha calor. Nada tinha presença. O amor, às vezes, não nos acrescenta coisas. Apenas devolve profundidade ao que já existia e parecia morto.

 Curioso como nós aprendemos a multiplicar contatos e diminuir encontros. Há milhões de vozes atravessando telas, mas cada vez menos somos capazes de olhar o outro como necessidade da alma. 

  A bela canção francesa nasceu em 1975 e continua atual porque o vazio humano não envelhece. Apenas muda de roupa. Antes, vinha no silêncio das cartas não respondidas. Hoje, aparece no brilho frio dos celulares que iluminam rostos solitários dentro de quartos escuros.

  O eu contemporâneo vive cercado de gente e morrendo de ausência. Finge independência absoluta, celebra a autossuficiência, transforma sentimentos em fraqueza negociável. Mas basta a madrugada chegar para surgir a pergunta escondida atrás de todas as ideologias modernas: quem daria sentido à minha existência se desaparecesse amanhã?

  A música responde sem responder. Não oferece solução filosófica, nem religião, nem heroísmo. Apenas revela que há pessoas cuja presença reorganiza o caos interno de alguém. Pessoas que nos fazem menos artificiais. Menos figurantes da própria vida.

Sinto que amar seja isso. Encontrar-se diante de quem a gente deixa de atuar. Alguém que nos retire da multidão dos rostos genéricos e devolva ao coração um endereço.

  Pode ser que o maior desespero humano não seja morrer. Seja continuar existindo sem realmente existir.


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