Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

A NAU


Por: | 05/06/2026


    Há embarcações que partem carregadas de especiarias, ouro e promessas. Outras levam apenas água, instrumentos para medir estrelas e uma coragem que mal cabe no peito.

As mais interessantes são as que viajam superlotadas.

Nelas convivem o homem que dá ordens e o que obedece. O que reza e o que duvida. O que calcula os rumos e o que apenas puxa cordas. Há quem viva olhando o horizonte e quem passe a viagem inteira examinando rachaduras.

    O capitão acredita conduzir a travessia. O piloto consulta os astros. O carpinteiro passa os dias reparando danos. Os grumetes correm pelo convés perseguindo maravilhas invisíveis aos mais velhos. No porão, barris guardam provisões, mas também coisas esquecidas que ninguém teve coragem de lançar ao mar.

Então chegam as tempestades.

O mar não distingue postos nem funções. Molha igualmente a autoridade e o aprendiz. Depois da tormenta, faltam tábuas, sobram cicatrizes e algumas certezas desaparecem para sempre.

A viagem, contudo, continua.

   Os anos depositam sal sobre a madeira. Mapas envelhecem. Certas rotas deixam de fazer sentido. Pequenos vazamentos surgem onde antes parecia haver solidez. Fazem-se remendos. Trocam-se peças. Perdem-se cargas. Ganham-se experiências.

Nada permanece exatamente igual.

Mas segue navegando.

    Sinto ser essa a grande lição das antigas naus portuguesas. Não foram os continentes descobertos, nem as riquezas encontradas. Foi a constatação silenciosa de que uma longa travessia transforma a própria embarcação.

Muito tempo depois, quando o vento atravessa os corredores da memória e faz ranger as tábuas do passado, compreende-se algo que os navegadores talvez já soubessem.

 Que essa embarcação imperfeita, que atravessa os anos carregando tudo o que fomos, tudo o que somos e tudo o que ainda esperamos encontrar depois da próxima linha do horizonte, somos nós.


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