Hildeberto Barbosa
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Hildeberto Barbosa

José Octávio, um organizador

Por: | 26/03/2024

LETRA LÚDICA
Hildeberto Barbosa Filho
José Octávio, um organizador

José Octávio de Arruda Mello não é só o historiador incansável da Paraíba, o pesquisador atento à multiplicidade dos fatos e à diversidade dos atores que se notabilizaram ao longo do tempo pelas ações, presença, ideias e obras. É, sobretudo, um organizador da cultura, e, como organizador da cultura, um militante inquieto e ativo face às ofertas do conhecimento e dos dados que possam servir de objetos de estudo.
Observo, sempre pautado pelo desafio cognitivo, sua atuação junto a instituições, academias, jornais, eventos, convicto de que observo um ser visceralmente envolvido com a pauta das informações históricas, porém, um ser que nunca abdica de seu chão e do seu entorno, para deles extrair o contributo essência, a compor o matizado e rico legado de nossa memória.
Além das narrativas históricas, da análise e da interpretação de perfil acadêmico, a exemplo de A revolução estatizada: um estudo sobre a formação do centralismo em 30 (1984), decerto seu estudo de maior fôlego e profundidade; além da exegese e da descrição configuradas em livros pontuais, mas de sugestivo interesse, como João Pessoa perante a história: textos básicos e estudos críticos (1978) e Os coretos no cotidiano de uma cidade: lazer e classes sociais na capital da Paraíba (1990), ou ainda, além do compromisso didático-pedagógico, explorado com clareza e concisão, em História da Paraíba: lutas e resistências (1994) e em tantos outros títulos de temáticas e assuntos variados, vejo em José Octávio a figura imprescindível do organizador.
Quer em função do papel significativo de alguma personalidade do universo político, social, econômico e cultural; quer na sondagem de temas específicos a serem abordados em perspectiva plural; quer no destaque e no realce que promove em torno de certos episódios, ocorrências e feitos relevantes de nossa história, o estudioso põe em prática sua metodologia de características ordenadoras, no sentido de demonstrar o movimento vivo da história. Sim, porque para ele, a história não se confunde com o mostruário inacessível dos arquivos mortos.
Nesta vertente de sua compleição intelectual, poderia citar diversas obras, programadas e realizadas, que trazem o selo decisivo de sua sensibilidade e de sua inteligência, compartimentando a realidade cognoscível em diversificados objetos de estudo, ao mesmo tempo em que tendem, devido à riqueza e à pluralidade dos conteúdos apresentados, a abrir perspectivas de debate e estimular a consciência crítica dos leitores.
José Américo de Almeida, não o escritor de ficção nem o cronista de variedades, mas o homem de feição científica, preocupado com as condições sociais e econômicas da Paraíba, aparece em José Américo e a cultura regional (1983), obra coletiva introduzida e organizada por ele e com participação de diversos colaboradores. Na mesma linhagem, ainda centralizando a figura do autor de A bagaceira, temos o recente A Paraíba e seus problemas: Volume 1 – Reedições da fortuna crítica (2023), auxiliado pela historiadora Lúcia Guerra e com um leque diferenciado de novos analistas, rastreando os motivos e as matérias discutidas neste livro emblemático, que veio a público em 1923.
Uma cidade de quatro séculos: evolução e roteiro (1985), em colaboração com Wellington Aguiar; Capítulos de história da Paraíba (1987), juntamente com Wellington Aguiar, Evandro Nóbrega e Gonzaga Rodrigues; O jogo da verdade: revolução de 64, 30 anos depois (1994), com Nonato Guedes, Sebastião Barbosa, Carla Mary S. Oliveira e Evandro Nóbrega; A Paraíba por si mesma (2012); Folclore, imaginário e cinema (2018), este com Hildeberto Barbosa Filho, e O movimento de 64 na Paraíba: origens, assalto ao poder e repressão (2021), com a coautoria de Victor Raul da Rocha Mello, são alguns dos exemplos que comprovam a intensa e constante intervenção de José Octávio na constituição e variedade de um acervo bibliográfico ao qual os estudiosos e, sobretudo, as novas gerações não podem ficar indiferentes.
Sua contribuição, assim, me parece inestimável. Historiador de todas as horas, pesquisador sempre tocado pela luz da curiosidade, intelectual aberto às críticas e aos debates, causer flexível e bem humorado, presença quase ubíqua na cena cultural do estado, José Octávio de Arruda Mello é referência incontornável na história e na historiografia paraibanas, sobremodo se o assunto são os anos 30, a revolução e João Pessoa.
Prolífero, não para de pensar nem de escrever; sempre com um novo projeto em vista; sempre atento às produções locais, à organização de seminários, aos lançamentos, aos fatos e fenômenos da vida cultural, José Octávio produz, questiona, reflete, problematiza, estimula, ensina, organiza. A história é o seu DNA. A história que nos ajuda a compreender melhor a vida.


FONTE: Facebook - Acesse

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