Hildeberto Barbosa: trajetória de crítico e de poeta - João Batista de Brito

Hildeberto Barbosa: trajetória de crítico e de poeta - João Batista de Brito
16/12/2023

UM PENSAMENTO NADA PROVISÓRIO SOBRE HILDEBERTO BARBOSA FILHO

por João Batista de Brito

Conheci Hildeberto Barbosa Filho no final dos anos setenta e desde então acompanho sua trajetória de crítico e de poeta. A convite de Sérgio de Castro Pinto, iniciei, em 1980, minha participação no Correio das Artes, onde Hildeberto, bem mais novo que eu, já colaborava havia anos. E, como ele, logo passei a escrever também para os jornais locais: O Norte, O Momento, Correio da Paraíba, A União. Tornamo-nos leitores um do outro, e mais que isso, amigos confidentes.

Predominantemente sobre poesia, meus escritos, então, giravam em torno da literatura anglo-americana que eu lecionava na universidade, com providenciais intervalos para os brasileiros, entre os quais os paraibanos. Pois um dos poetas sobre o qual mais escrevi, na época, foi o próprio Hildeberto, que já me garantiu que esses escritos, se recolhidos, dariam um livrinho. Não sei. Com certeza, seria um livrinho desatualizado, pois, como se constata, a poesia de Hildeberto vem crescendo a olhos vistos, quantitativa e qualitativamente.

Mas aqui gostaria de me ater ao trabalho de Hildeberto como crítico literário. E começo afirmando que não tenho nenhuma dúvida de que estamos diante de um crítico de primeira grandeza, se não fosse por outros critérios, o mais assíduo e o mais completo. E faço esta afirmação com plena tranquilidade, já que milito na mesma área.

Em ensaios isolados ou em livros, enorme é o leque de autores abordados ou questões enfrentadas por esse crítico incansável, responsável, consciente, honesto, atento às manifestações mais diversas do universo literário. Quem o acompanha percebe, em sua longa e competente carreira de escritor, a paulatina configuração de um modus operandi, cada vez mais pessoal e inconfundível. Seu domínio sólido das teorias, dos estilos, das narrativas simbólicas e das questões estéticas mais prementes; sua comovente paixão pelo métier abraçado; sua habilidade de penetração no texto alheio; sua sensibilidade de leitor curioso e investigativo, sempre em busca do novo, ou daquilo que foi relegado; seu talento para desvendar os insights menos visíveis numa obra particular, e igualmente, sua facilidade para dar vida aos seus próprios insights; sua enciclopédica convivência com as ideias da humanidade, filosóficas, artísticas ou científicas... Tudo isso e o mais que me escapa fazem de Hildeberto um crítico de estatura avantajada.

Quem nos dá um belo relato da multiplicidade de Hildeberto é o também crítico Milton Marques Junior em prefácio a um de seus livros, que não resisto em citar: “Hildeberto é múltiplo – analista, crítico, memorialista, poeta e epistológrafo (...) se multiplica na história, filosofia, sociologia, antropologia (...) Os Hildebertos (assim, no plural) são uma enciclopédia, que vão destilando os saberes e os aprofundando na leitura percuciente do crítico”.

Um elemento que destaco na vocação crítica de Hildeberto se situa no âmbito fenomenológico, aquele da linguagem mesma. Aquilo a que, por falta de termo melhor, chamamos estilo. Antes de tudo um poeta apaixonado, ao exercer essa atividade supostamente prosaica que é a crítica, Hildeberto reveste-a por vezes de uma dicção poética que nem foge ao rigor, nem descarta o aparelho conceitual, este, aliás, nele sempre inexplícito, mas nunca inexistente. Não é raro que a intenção sempre firme de dar conta de um poema, conto ou romance lido, - e por ventura apreciado - conduza o crítico a expressões, metafóricas, simbólicas, ambíguas, criativas, engendrando na tessitura da linguagem, nuances que encantam leitor e autor sem fazer favor algum. Muitas vezes são imagens carnais, revelando sua natural vitalidade, ou telúricas, refletindo as suas origens rurais, ou metafísicas, expressando o seu desespero de pensador. Dito em outras palavras: em certas instâncias do tênue tecido da coisa literária, crítico e poeta se confundem, e a confusão é extremamente rentável. Não sem razão um dia o apelidei (e é Milton Marques quem me lembra) de “Hildebardo”.

Por outro lado, não deixemos de lembrar, sua responsabilidade com o literário também pode ser incômoda e mesmo ferina, quando entende que ao texto analisado falta valor estético.

Ora, com a qualidade que exibe, a obra crítica de Hildeberto, creio eu, era para estar há muito tempo circulando fora dos limites da Paraíba. E – me parece – não está. Falta-lhe o reconhecimento nacional que merece. Parece-me que escapou ao cidadão Hildeberto a esperteza de “cavar” uma carreira fora dos limites paraibanos. Uso o termo “cavar” de propósito, pois sei como muitas vezes sucessos profissionais dependem dessa prática nem sempre confortável para o praticante. Essa limitação, bem entendido, é do homem, e não da obra, e deve – tudo bem - ser respeitada. Mas nada obsta que, além de respeitada, também seja lamentada – como aqui o faço.

Ocorre-me que teria sido (ou seria, pois ainda há tempo pra tudo) mais que essencial a providência de um agente que se mobilizasse no sentido de chamar a atenção de um público leitor maior, fora da província. Chego mesmo a imaginar uma estratégia, digamos, mercadológica, que consistiria na organização de um livro que contivesse uma seleção (feita conjuntamente, por autor e agente) de ensaios hildebertianos sobre escritores brasileiros e estrangeiros (poetas, contistas, romancistas), livro de certo volume que, com um título atraente, seria encaminhado a editoras nacionais que publicassem nessa linha.

Que eu saiba, medidas dessa ordem nunca foram tomadas. E não há problemas se nunca forem. O único receio dos leitores de Hildeberto Barbosa Filho é que essa timidez possa vir a ser interpretada por espíritos maldosos como provincianismo. Provincianismo que sua obra, em si mesma, nunca teve, diga-se de passagem, mesmo quando ela trata de autores locais.


FONTE: Facebook

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