OLHE PARA MIM, ESTOU VIVA/ Por Carla Carretta Kunze

OLHE PARA MIM, ESTOU VIVA/ Por Carla Carretta Kunze
02/02/2026

  "Eu o amava, mas queria mais da vida do que parir, embalar, lavar, cozinhar. Eu queria voltar a estudar, queria ser jornalista. Ele dizia que "jornalista é tudo puta". Eu me calava. Tinha medo, sozinha com ele e três crianças, numa terra distante, sem amigas, sem família.           Precisava calar. À noite, se eu negava sexo por estar magoada ou cansada, ele me pegava à força, eu não podia gritar, tinha três meninas no quarto ao lado que não mereciam escutar a mãe sofrendo e o pai sendo um monstro. Me batia, me arrastava pelos cabelos, me humilhava, sempre quando não havia ninguém olhando. Não tinha lei que me protegesse, nem a quem pedir socorro. Eu resistia, nem chorava mais. De manhã, acordava dolorida física e mentalmente. A campainha tocava, era o entregador com um lindo buquê. E um bilhete pedindo perdão cheio de erros de português. Olhava o bilhete e pensava, ele é um ignorante, por isso não quer me ver estudando. É recalque. Tinha pena dele, e fui ficando.     Consegui convencer de que eu precisava estudar mais sobre educação, isso ajudaria a criar as nossas filhas. Ele concordou. Fiz vestibular e comecei a estudar Pedagogia.   Ele também não gostou, tinha raiva cada vez que me via estudando. Me seguia à faculdade e me vigiava de longe, controlava meus passos. Uma noite, cheguei da aula e levei uma cabeçada. Uma semana com aquele galo roxo na testa. Escondida dos olhares de todos, presa em casa. Até que ele foi embora.   Sem dizer nada, sem explicação, sem se despedir das filhas. Foi o dia mais triste e mais feliz. Eu e minhas filhas estávamos livres. Mas ele não parou por aí, ele queria acabar comigo, me sabotava, parou de pagar o aluguel e fomos despejadas do apartamento. Parou de pagar a escola e elas ficaram sem escola. Subornou o zelador e entrou no prédio e roubou meu carro. Ele me difamou. Eu era a louca, a surtada, a indomável, a péssima mãe. Ameaçou tirar minhas filhas ali mesmo, no saguão do tribunal, com voz baixinha. Me deixou sem nada. Absolutamente nada. Juntei os cacos e as filhas e voltei para minha terra, voltei a estudar, recebi o meu canudo de "puta". E amei de novo. Tive mais um filho. Depois amei outra vez, até fui feliz. Se eu o odeio?   Não, nem isso eu sinto por aquele homem que abandonou as minhas filhas e nem conhece os netos. Tentou acabar comigo, tentou me tornar invisível, mas olhe para mim, beibe, estou viva. Você não me derrubou. Eu sobrevivi."

  Este é um pedacinho de minha história que poucos conhecem, é dedicado às minhas filhas e a todas as mulheres que ousam sonhar. 

Eu me chamo Carla Carretta Kunze e sou jornalista.


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