
Os tempos são de perplexidade. Temos assistido às maiores barbaridades, rolando a tela do celular, num deslizar mecânico e indiferente. O mundo, essa gaiola de loucura, vai ganhando contornos de uma grande partida de futebol. O bem e o mal diuturnamente se digladiando, mas com etiquetas trocadas. O que é bem vira mal, o que é mal vira bem. Tudo “al revés”. Lembro-me, por exemplo, das campanhas bolsonaristas na internet acusando o Papa Francisco de pedófilo e comedor de criancinhas quando, na verdade, eram seus “ídolos” os que praticavam esses horrores. E assim, poderíamos seguir com centenas de exemplos.
Santa Catarina, outro exemplo, é pintado como o estado mais seguro do país, o lugar das maravilhas. Mas por aqui tivemos, no ano passado, mais de 50 feminicídios e 225 tentativas. É verdadeiramente uma epidemia. Todos os dias, os jornais mostram uma mulher sendo assassinada ou escapando por um triz. Matar virou coisa natural, como se vivêssemos num mundo anômico, sem lei. A polícia, que deveria existir para proteger, tem sido a que mais mata. Cem pessoas foram mortas pela PM, e uma em cada quatro sem qualquer antecedente criminal. Nos últimos dias, vimos policiais agredindo mulheres de maneira brutal, sem qualquer propósito. E mesmo com todos estes dados e informações, seguimos ouvindo os boca-alugadas da mídia afirmarem que aqui é o melhor lugar para viver, por conta da segurança. Segurança para quem?
No que diz respeito à cidade, também são incontáveis às violências. Dia após dia, a administração municipal vai destruindo a vida, a memória, a cultura. E a população ― salvo raras exceções ― seguindo a vidinha, apreciando aos videozinhos do prefeito no Tik Tok. O cimento tomando conta das praias, o crescimento desordenado e sem estrutura, o esgoto jorrando no mar. E a turma curtindo o verão. A última agora é o anúncio da tal marina da Beira-Mar, mais um empreendimento que nos rouba a cidade. Obra para os ricos, aplaudida pelos que nada têm. Enquanto isso, os trabalhadores vão sendo empurrados para fora da cidade, com as vidas inviabilizadas pela voracidade do capital.
Nem vou falar do martírio do cãozinho Orelha, protagonizado por jovens "bem-nascidos".
Ontem, vi a notícia de que tentaram destruir os bonecos do Berbigão. Um baque atrás do outro. Ainda não se sabe quem ateou fogo nos bonecos que, por conta da ação rápida do segurança, não queimaram na totalidade. Apenas dois foram destruídos, mas eu torço para que tenha sido uma fatalidade, um ato tresloucado de alguma pessoa alcoolizada, sei lá. Não sei se suportarei saber que foi um ato intencional, para realmente apagar os gigantes da alegria, bonecos de pessoas que são significativas da nossa cultura.
Assusta-me ver nossa cidade se transformando desta forma tão violenta. E parece que não há parada... Seguiremos rolando a tela do celular? Inertes?
De minha parte, escrevo, na minha impotência...
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