
Tentam imaginar tropas americanas apoiadas por tropas especiais e cobertura aérea, numa luta desesperada pela capital iraniana. E o desespero é todo dos iranianos. Eles não podem perder. Se Teerã cair, junto com ela cairá um dos mais controversos projetos de Teocracia representativa já posto em prática. As melhores tropas iranianas estão muito bem municiadas e contam com o apoio da população, que neste momento está rezando para Alá à espera de um milagre. A batalha é casa a casa. Para cada metro quadrado ocupado pelos americanos, os iranianos surpreendem com um contra-ataque que recupera, ainda que temporariamente, outros metros quadrados que se acreditava perdidos. Os americanos vão vencer, mas o custo é altíssimo e o presidente americano consulta seus assessores para dar a notícia da vitória sem o alarde do custo das milhares de baixas. A vitória sorri para ele, mas a conta vai chegar. Enquanto isso, centenas de pequenos grupos remanescentes do exército iraniano e da Guarda Revolucionária se espalham pelo país a fim de articular uma resistência.
Podem esquecer, pois a batalha de Teerã não acontecerá.
Juro que imaginei a capitulação iraniana ainda na primeira semana após o início das hostilidades iniciadas pela coalizão EUA-Israel-países do Golfo, mas devo confessar que os meus parcos conhecimentos sobre geopolítica do Oriente Médio de tão parcos viraram paupérrimos. Precisei estudar com mais profundidade o Irã dos Aiatolás em vez de me deliciar com a Pérsia de Ciro, Dario e Xerxes.
A verdade sobre o Irã é que trata-se de uma civilização com quase três mil anos de história e cujo território foi amaldiçoado pela História ao servir de passagem para todo tipo de invasor.
O Irã fica entre o Oriente Médio e o Oriente propriamente dito, vulnerável a ataques vindos de todas as frentes. Sua geografia é tão difícil que algumas vezes atrapalhou os próprios iranianos.
Para completar o ciclo de maldições geográficas, o milenar Irã descobriu uma das maiores reservas de petróleo do mundo, justamente quando não era mais uma potência respeitável para impor seus termos aos compradores.
Assim, do Xá ao Aiatolá, a ex-potência mundial virou um peão no xadrez internacional. Não criaram instituições fortes, não separaram a igreja do Estado, não fizeram uma revolução industrial e tentaram risíveis experiências democráticas. Aceitou o pequeno status de "potência regional" para se autoenganarem que ainda tinham alguma importância maior do que aquela que o petróleo lhe proporciona.
Eis que os Aiatolás, mais por causa de tensões religiosas do que de uma rebeldia genuína, se declararam anti-imperialistas e passaram a demonizar os EUA por causa de sua supremacia naquelas bandas.
Não bastassem terem virado vilões de filmes B americanos, os iranianos sofreram embargos e ameaças que, de tão repetitivas, nunca mais acharam que haveria um ataque americano.
Foi aí que todo mundo se enganou, inclusive os Aiatolás.
Os americanos atacaram. Um dia atacariam, mas nunca seria hoje. Os americanos passaram quase meio século fazendo lavagem cerebral em seu próprio povo vendendo a imagem de um Irã selvagem, habitado por pessoas ruins controladas por fanáticos religiosos que têm um plano secreto para destruir a Liberdade, a Família e os valores cristãos. Mesmo quando os sunitas do Estado Islâmico degolaram civis cristãos ao vivo na TV ou os sunitas da Al Qeda explodiram as torres gêmeas, o imaginário popular americano continuou comprando a ideia da vilania xiita.
Então, Donald Trump resolveu surfar na onda da popularidade conservadora, seja sustentando discursos de retorno a um passado que nunca existiu ou bancando aventuras militares não para ameaçarem o mundo, mas para mostrar aos eleitores que ele é o líder que a América sempre sonhou em ter. E o laranjão prendeu o Maduro, anunciou a anexação da Groenlândia, humilhou Chefes-de-Estado no Salão Oval da Casa Branca, impôs tarifas estratosféricas a parceiros comerciais que julgava "espertalhões", deportou imigrantes mais indesejáveis do que ilegais, falou grosso com adversários (menos o Putin) e achou que era hora de pôr um fim ao regime iraniano. Foi aí que começou a dar errado. Trump achou que matara os líderes malvadões, mas a turma que morreu era quem se opunha à bomba atômica. Quem substituiu é quem queria a bomba (e agora quer mais ainda).
Ambos os lados jogam drones e mísseis uns nos outros, com uma menção honrosa aos engenheiros iranianos que produziram mísseis potentes e drones precisos por um preço cinco vezes menor do que os dos americanos. A verdade é que os iranianos dobraram a aposta e saíram atacando os aliados americanos a torto e a direito, mirando nas bases dos EUA e fechando a navegação pelo Estreito de Ormuz. Do lado americano, na falta de bons filmes B com Chuck Norris ou Silvester Stallone esmurrando xiitas feios e malvados em batalhas de mentirinha, eles seguem esperando que os iranianos escolham um novo líder parecido com o Michael Ironside, para quando for discursar na TV, o laranjão possa apontar para a tela e bradar: "Olha aí! Eu avisei que eles são maus!".
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