
Num daqueles momentos em que sentimos necessidade de desabafar, fiz uma postagem sobre a angústia de ter livros prontos que talvez nunca sejam publicados. Confessei: “Sabem o que mais me dói? É ter livros prontos que talvez sejam póstumos”. Claro, não me comparo a Nietzsche, que dizia que “alguns homens nascem póstumos”, mas a ideia me atravessou.
Minha intenção não foi pedir ajuda, mas expressar a resignação diante da rocha redonda que Sísifo precisa empurrar eternamente montanha acima.
Muitos amigos, com a melhor das intenções, sugeriram pagar a uma editora para publicar meus livros. Entendo: se a obra foi escrita apenas para satisfazer a vaidade ou presentear conhecidos, esse pode ser um caminho válido. Mas quando se investem anos de pesquisa, leituras e releituras, revisões, acréscimos e cortes, num trabalho solitário e exigente, o livro ganha densidade intelectual e merece um destino mais digno. Soma-se a isso o périplo de incontáveis e-mails enviados a editoras, quase sempre sem resposta, ou com a resposta seca: “Não recebemos originais.”
Compreendo também o lado das editoras: diante de um mercado editorial cada vez mais restrito no Brasil, preferem apostar em livros de autoajuda (que ainda vendem relativamente bem) e em best-sellers estrangeiros. É mais seguro. Além disso, recebem inúmeros autores dispostos a pagar pela publicação. Sequer leem esses originais, mas engordam seus catálogos com títulos que, em grande parte, são medíocres. Triste.
Dois dos meus livros — Depois que Descemos das Árvores e Um Humano num Pálido Ponto Azul (este, edição revista e bastante ampliada do primeiro) — foram publicados sem custo algum, porque as editoras perceberam valor e decidiram arriscar. Um terceiro, Dilma – A Sangria Estancada, esteve prestes a sair, mas a editora recuou na última hora. Resultado: publicação independente, sem o respaldo necessário para divulgação e distribuição.
Hoje, quatro obras aguardam uma editora: Haiku – O Origami das Palavras (50 haicais ilustrados, escritos em japonês, com tradução e métrica rigorosa); Japão 日本 – Um Olhar Ocidental sobre o Japão (minhas impressões de anos vividos no país do Sol Nascente); Contos Adolescentes que Saltam dos Livros; e O Quadragésimo Oitavo Samurai (ficção ancorada em fatos históricos).
Agradeço profundamente o carinho e os conselhos dos amigos, sempre dispostos a ajudar. Mas sigo, com paciência e persistência, metido na pele de um Sísifo tupiniquim, na jornada de dar vida editorial a esses rebentos.
Desculpem o chororô.
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