NINA, UMA CACHORRA QUE SABE DAS COISA.../ Por Paulo Cavalcanti

NINA, UMA CACHORRA QUE SABE DAS COISA.../ Por Paulo Cavalcanti
26/04/2026

Nina, uma cachorra que sabe das coisas....

   A Nina não sabe o que é calendário, mas sabe exatamente a hora em que eu preciso dela.

Eu estou me tratando de um câncer de estômago, e invariavelmente, a cada uma das 8 sessões de quimioterapia, quando eu chegava em casa (acabado), sentava no sofá, é ela vinha do meu lado, colocava o queixo na minha perna, e ficava me olhando....com aquele olhar dizendo: "força....eu estou aqui".

    Tem dias em que o mundo chega pesado, cheio de números, notícias e pequenas irritações que vão se acumulando como poeira em cima da alma. Eu sento, respiro fundo, e antes mesmo de entender direito o que estou sentindo, lá está ela — Nina — com aquele olhar que não pergunta nada, mas entende tudo.

Ela não cobra explicações. Não quer saber se o problema é grande ou pequeno, justo ou exagerado. Para Nina, basta que eu esteja ali. E isso, de algum jeito, resolve metade de tudo.

   A rotina com ela é feita de coisas simples: o passeio que nunca pode atrasar, o barulho da ração no pote que parece anunciar uma festa, o latido indignado para um gato que nem percebe sua existência. E, no meio disso tudo, a vida vai ficando mais leve, quase sem que eu note.

    Outro dia, eu falava sozinho — hábito antigo de quem pensa demais — e ela me olhava inclinando a cabeça, como quem diz: “não complica”. E talvez seja isso. Talvez Nina seja uma espécie de filosofia prática, dessas que não se escrevem em livros, mas se vivem no quintal, na sala, na beira da cama.

    Ela não conhece o passado nem se preocupa com o futuro. Vive com uma intensidade despretensiosa, como se cada momento fosse suficiente. E, convivendo com ela, eu vou aprendendo — devagar, do meu jeito humano e complicado — a fazer o mesmo.

Às vezes, acho que sou eu quem cuida da Nina. Mas, em dias como hoje, fico com a impressão de que a conta não fecha assim tão fácil.

Porque, no fundo, entre um carinho e outro, é ela quem me ensina a continuar.




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