Muito além do campo de batalha - por Miriam Sanger

Muito além do campo de batalha - por Miriam Sanger
28/04/2026


A guerra contra o Irã é, muito mais do que um conflito bélico, um catalisador de mudanças. Miriam Sanger para a Oeste:


Minutos depois de Donald Trump anunciar que havia acordado um cessar-fogo com o Irã, no dia 8 de abril, veículos de informação e mídias sociais reagiram como a um choque de alta voltagem. “Os EUA novamente encerrarão a guerra sem permitir que Israel cumpra todos os seus objetivos”, estampavam editoriais de jornais israelenses. O slogan “TACO: Trump Always Chickens Out” (“Trump sempre amarela”), criado por opositores do presidente, ecoou em diferentes idiomas. “O regime islâmico venceu”, comentavam outros.

As decisões seguintes de Trump logo evidenciaram que o embate está longe do fim e que, portanto, nenhuma dessas leituras há de estar correta. No entanto, é preciso admitir que a guerra de narrativas entre os oponentes dificulta qualquer tentativa de construir uma visão clara dos eventos. No mesmo dia em que Trump anuncia que o Estreito de Ormuz foi reaberto, o regime iraniano comunica o contrário; enquanto iranianos afirmam que não abrirão mão de seu programa nuclear, americanos divulgam que os 450 quilos de urânio enriquecido serão entregues aos EUA.

O slogan “TACO: Trump Always Chickens Out” (“Trump sempre amarela”), criado por opositores do presidente, ecoou em diferentes idiomas 

Até mesmo o analista geopolítico mais experiente enfrenta dificuldades para traçar um cenário de curto prazo. “Há muitas dúvidas. Voltaremos à guerra cinética? Haverá entendimento entre as partes? Quanto tempo ficaremos nesse espaço intermediário, no qual não há acordo nem combates?”, reflete Tal Becker, especialista em direito internacional que por 15 anos atuou como conselheiro jurídico das Forças de Defesa de Israel (IDF).

O que dizem os fatos

Teerã sofreu perdas consideráveis, que incluem a morte de 250 líderes do regime — entre eles o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Segundo o think tank Foundation for Defense of Democracies (FDD), os ataques tiveram um impacto estimado de 38% a 48% do PIB iraniano, totalizando US$ 175 bilhões em perdas e aproximadamente US$ 13 bilhões em prejuízos econômicos mensais. Cerca de 90% de seu arsenal balístico foi destruído; o programa de enriquecimento de urânio foi, também segundo a FDD, “efetivamente destruído”. Os prejuízos econômicos continuam crescendo exponencialmente a cada dia, agora também em função do fechamento do Estreito de Ormuz pelo atual bloqueio americano.

Por outro lado, Teerã conseguiu impor perdas a seus inimigos. Internamente, os Estados Unidos estão em ebulição por causa da divisão de opiniões em relação à guerra; externamente, a administração Trump é apontada como responsável pelo aumento mundial do preço da energia. Israel contabilizou vítimas fatais, milhares de desabrigados e a parcial paralisação do país durante semanas consecutivas de ataques. Os países do Golfo — em especial os Emirados Árabes — foram surpreendentemente atacados pelo Irã em uma estratégia que, em lugar de pressionar os EUA, acabou promovendo a aproximação entre as potências da região.

Mulheres iranianas armadas com fuzis posam sob retratos dos falecidos e atuais Líderes Supremos do Irã, os aiatolás Ali Khamenei e Mojtaba Khamenei, durante um desfile militar organizado pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) no centro de Teerã, Irã, em 17 de abril de 2026 

Esses são dados factuais, a princípio, irrefutáveis, e assim escapam da especulação movida por posicionamentos políticos. “É perturbador ver como as pessoas baseiam suas análises em uma visão política preexistente, em que ser pró-Bibi ou anti-Trump, por exemplo, serve de fundamento para conclusões”, comenta Becker. John Spencer, autor especializado em guerras urbanas e presidente do Modern War Institute, concorda e propõe um exemplo sobre essa percepção.

“Após o anúncio do cessar-fogo, muitas vozes afirmaram que a coalizão EUA-Israel foi incapaz de furar o bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz. Essa afirmação é simplesmente errada. Afinal, os EUA e Israel já demonstraram ser capazes de feitos extraordinários. Eles podem abrir a passagem à força, mas certamente há um motivo pelo qual não o fazem. E isso revela o quanto não sabemos sobre o que está de fato acontecendo. Não temos conhecimento sequer de quem são os tomadores de decisão no Irã neste momento. Fora isso, cada lado parece estar negociando sobre um plano diferente — há um de 10 pontos, outro de 15. É preciso admitir que simplesmente não sabemos”, resume Spencer.

Quando um especialista deste nível emite tal declaração, é preciso prestar atenção.

Além do campo de batalha

Outro aspecto que passa despercebido pelo grande público é o fato de o resultado imediato das ofensivas não ser o único aspecto crítico desta longa e custosa operação militar. “Há muitas métricas eficientes, como calcular quem está mais perto de seu objetivo pelo menor custo. No entanto, acredito que nossa métrica mais importante está relacionada às dinâmicas que estão sendo ativadas a partir dessa guerra”, aponta Becker.

Para os mais atentos, um zoom out evidencia movimentos significativos e históricos em curso. O Irã, hoje chamado de Tigre de Papel, expôs ao mundo a desconexão entre países que aparentemente pertenciam ao mesmo bloco árabe — como Catar, Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes e Arábia Saudita. Alvejados pelo regime, eles passaram a enxergar Israel como um parceiro que, mais do que viável, é importante para a estabilidade do Oriente Médio.

Além disso, o bloqueio de Ormuz levou diversos países a entender a urgência de criar rotas alternativas de transporte de energia, fator que isolará ainda mais o Irã no mapa global. “Há agora potências regionais unidas para garantir que o Irã perca sua capacidade de desestabilizar o Oriente Médio. Isso abrirá mais espaço de atuação para aqueles empenhados em seu equilíbrio”, afirma Becker.

Outros personagens, além do Irã, também sairão fragilizados desse conflito, como a Otan e a ONU. Ambas enfrentam um processo de deslegitimação liderado por Trump, resultante da postura polêmica ao longo da guerra. É certo que, assim que as bombas deixarem de cair, as duas organizações terão que promover uma considerável prestação de contas.

O Irã expôs ao mundo a desconexão entre países que aparentemente pertenciam ao mesmo bloco árabe — como Catar, Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes e Arábia Saudita 

Do Oriente Médio às ruas do Brasil

Os objetivos desta guerra foram traçados com relativa clareza. Dois deles são mensuráveis: a destruição do programa nuclear iraniano e a degradação de seu arsenal balístico. Como meta não declarada, mas publicamente planejada, está o fim do regime dos aiatolás. Menos tangível — mas igualmente central — é a exigência do fim do financiamento iraniano à sua rede de proxies, entre eles o Hezbollah.

É aqui que a guerra no Oriente Médio deixa de ser um assunto distante e passa a dizer respeito diretamente ao Brasil.

A presença do Hezbollah em território brasileiro não é novidade. Ainda assim, chama a atenção o fato de a organização ter encontrado no país um terreno fértil para crescer e se fortalecer, e livre para navegar pelo universo do crime organizado. Sem ser exclusividade brasileira, esse processo foi semelhante ao que ocorreu em outros países da América Latina que, diferentemente da Argentina e do Paraguai, até hoje não reconheceram o Hezbollah como grupo terrorista.

Há anos, as forças policiais brasileiras identificaram uma intersecção clara entre as atividades do Primeiro Comando da Capital (PCC), do Comando Vermelho (CV) e do Hezbollah. Diferentes investigações mostraram que os três grupos compartilham as mesmas redes de facilitação logística e financeira. Mais do que isso, a parceria criminosa alcançou o órgão que deveria responder pelo direito social dos brasileiros: o INSS.

A presença do Hezbollah em território brasileiro não é novidade 

Hezbollah e o INSS

A ligação foi apontada pela CPMI do INSS este mês e mostra que a mesma estrutura financeira clandestina usada para desviar recursos de aposentados e pensionistas estaria sendo compartilhada com o Hezbollah. Trata-se de uma rede que conectaria o esquema previdenciário, o PCC e o grupo terrorista, formada por empresas de fachada, laranjas, corretoras de câmbio e operadores de criptoativos.

A ligação deste tema com o Irã é mais direta do que parece, em função da capacidade do Hezbollah de se transfigurar para manter-se vivo. Em crises econômicas anteriores, quando o Irã foi obrigado a reduzir o patrocínio financeiro ao Hezbollah, o grupo buscou novas formas de se financiar — e as encontrou em parceria com grandes organizações criminosas. Uma entidade assimilou as técnicas e os comportamentos da outra, criando uma simbiose perigosa: essa que, hoje, o brasileiro comum acompanha com crescente preocupação nos noticiários.

Tornou-se difícil apontar uma divisão clara entre crime e terrorismo no Brasil. Grupos criminosos incendeiam ônibus e explodem bombas, táticas classicamente terroristas. O PCC chegou a planejar um ataque à Bolsa de Valores e executou explosões em quartéis. A fronteira entre o crime organizado e o terror político se apaga a cada um desses episódios.

O temor da repetição

De volta ao conflito central, resta uma preocupação que paira entre os israelenses — e que ecoa diretamente sobre o cenário descrito há pouco. “Vejo um padrão em Israel nesta guerra: o país sabe como começar a ofensiva, consegue atingir feitos extraordinários e, no final, chega a um cessar-fogo imposto pelos EUA que prevê que o país voltará ao conflito se julgar necessário — mas nunca volta”, afirma Lazar Berman, analista do think tank americano Middle East Forum. “Se este for o padrão proposto pelos EUA para o conflito com o Irã, Israel novamente ficará preso em um cessar-fogo até que se inicie uma nova guerra.”

Da mesma forma, se o Hezbollah sobreviver ao enfraquecimento do Irã com sua estrutura intacta — ou, pior, encontrando novas fórmulas e fontes de financiamento no mundo do crime —, o próximo capítulo dessa história não será escrito apenas no Oriente Médio. Inclusive porque, agora está claro, parte dele já está sendo escrita em português e usando números de CPF.

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FONTE: Revista Oeste - via Blog do Orlando Tambosi (otambosi.blogspot.com)

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