
Victor Leonardi deu importante contribuição para o estudo das relações de trabalho e dos movimentos operários no Brasil, como pesquisador e historiador.
Desde sua análise e reflexão a respeito da exploração do trabalho de indígenas e negros, no Brasil, entre os séculos XVI e XX, em seu livro “Entre árvores e esquecimentos”, até o estudo das origens da indústria e do trabalho, tema deste ensaio, escrito em coautoria com Francisco Foot Hardman.
Neste 1º. de Maio – Dia do Trabalho, vamos assinalar uma de suas contribuições nesse campo.
O livro “História da indústria e do trabalho no Brasil” contém um quadro minucioso das origens mais remotas do trabalho industrial. Nos primeiros capítulos os autores estudam os aspectos sui generis da vida nas fábricas brasileiras de meados do século XIX, quando o trabalho assalariado ainda coexistia com o trabalho escravo no interior de algumas empresas do Rio de Janeiro e da Bahia.
Em pesquisa inovadora, de arqueologia industrial, Leonardi e Foot percorreram várias fábricas paulistas do tempo do Império e da República Velha, coletando documentos, fotografando máquinas antigas, gravando entrevistas. Fizeram isso em alguns bairros operários da cidade de São Paulo e, também, em Campinas, Jundiaí, Itu, Sorocaba, Salto e Petrópolis.
Além das fábricas têxteis, estudaram as indústrias alimentícias, as primeiras metalúrgicas, as gráficas, a construção naval, as fábricas de cigarro, de bebidas, de chapéus, de produtos químicos.
O trabalho operário nas ferrovias e portos também foi objeto de investigação e reflexão, em especial no porto de Santos e na Companhia Paulista de Estradas de Ferro.
As primeiras fábricas modernas, do ramo têxtil, surgiram no Recôncavo Baiano, nos anos 1840, utilizando energia hidráulica. Nos trinta anos seguintes, outras fiações e tecelagens foram criadas - no Maranhão, em Pernambuco, Alagoas, Rio de Janeiro, São Paulo - e o vapor passou a ser utilizado. Na província de São Paulo, a fábrica pioneira na utilização do vapor localizava-se em Itu.
O número de fábricas aumentou, nos anos 1870, após o fim da Guerra do Paraguai, mas eram, quase sempre, estabelecimentos de pequeno porte e vida efêmera. Foi só após a abolição da escravidão, em 1888, que um primeiro surto de industrialização propriamente dito se deu, nos anos 1890, com o surgimento de algumas fábricas que empregavam mais de 1 mil operários.
É nesse período, anterior à Primeira Guerra Mundial, que a imigração se intensificou, trazendo para o Sudeste e Sul do Brasil milhares de trabalhadores italianos, espanhóis, portugueses, alemães, sírios, libaneses, japoneses, poloneses e outros.
Leonardi e Foot estudam as condições de vida e de trabalho desses imigrantes e sua participação nas primeiras associações operárias de ajuda mútua e, mais tarde, nas associações de resistência e primeiros sindicatos.
A primeira greve de assalariados no Brasil foi feita no Rio de Janeiro em 1858. A primeira central sindical foi criada em 1906 e entrou em atividade em 1908.
Os autores estudaram as primeiras associações operárias do porto de Rio Grande e da cidade de Pelotas, de orientação socialista, que em 1893 criticaram as duas facções políticas que levaram o Rio Grande do Sul à guerra civil e, também, analisaram movimentos associativistas de assalariados de outros estados brasileiros.
A imprensa operária é analisada e todas as atas dos primeiros congressos operários brasileiros - 1906, 1913, 1920 - são lidas e comentadas. Todos esses fatos mencionados ocorreram no período anterior à fundação do Partido Comunista Brasileiro (1922), quando os anarquistas ainda predominavam nas associações operárias.
A grande greve geral de 1917, em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi também objeto de análise. Teatro e literatura escrita por trabalhadores mereceram atenção especial, pois expressam muito bem as mentalidades daquela época. Os autores também resgataram biografias de líderes anarquistas espanhóis e italianos que emigraram para o Brasil entre 1890 e 1920.
O livro vai além das questões reivindicativas e reconstrói, para o leitor, inúmeros momentos de lazer vividos por operários e operárias antes de 1914.
Mostra também como existiram vínculos entre alguns grupos brasileiros e a Associação Internacional de Trabalhadores - AIT (fundada em Londres em 1864), mais conhecida como 1ª Internacional, e, posteriormente, com a Internacional Socialista, a 2ª Internacional, fundada em Paris em 1889.
A maior importância deste livro vem do fato de ele mostrar como era o movimento operário brasileiro no período anterior à destruição dos sindicatos independentes pela ditadura do Estado Novo (1937 - 1945).
Antes de 1935, fossem dirigidos por anarquistas ou por socialistas e comunistas, os sindicatos não estavam subordinados ao Estado e viviam de seus próprios recursos financeiros, ou seja, de contribuições dos afiliados. Sob Getúlio Vargas tudo isso mudou: foi criado o imposto sindical obrigatório, surgiram os pelegos (burocracia sindical) e o sindicalismo foi subordinado e atrelado verticalmente ao Ministério do Trabalho.
Foi o fim dos sindicatos independentes e o início do corporativismo. Esse fato maior deixou inúmeras marcas na história social e política do Brasil nas décadas seguintes.
O resultado dessa extensa pesquisa é que este livro deu, pela primeira vez na historiografia brasileira, uma visão de conjunto dos primórdios do trabalho assalariado no Brasil, indo além do eixo Rio-São Paulo, com análises detalhadas daquilo que ocorreu nos demais estados entre 1890 e 1917.
Editora Global - São Paulo, 1982 - 1a. edição
Editora Ática - São Paulo, 1991 - 2a. edição
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