
As pessoas procuram terapias para sustentar sua vaidade.
Estão se sentindo desconfortáveis com algo e querem se sentir confortáveis. Querem ter mais e mais e mais consciência de si, dos seus mecanismos, das suas sombras. Querem iluminar suas sombras!! Querem evoluir. Sentem-se imperfeitas, neuróticas, adoecidas, e querem ser melhores.
Dá pra perceber que o próprio motivo de buscar uma terapia já é autocentrado?
Mesmo que o "criador da neurose contemporânea" tenha afirmado que não nos livramos da neurose, que nunca deixaremos de ser neuróticos, só podemos melhorar nossas convivências com isso, a maioria das pessoas intenciona ser melhor, ser do bem, se curar. (não, eu não acredito em neuroses)
E as terapias estão totalmente adaptadas a esse desejo narcisista de continuar a girar em torno de si mesmo, em busca de um indivíduo melhor, de uma individuação, de uma consciência de si. Disfarçadas por uma técnica de crítica ao indivíduo, as psicologias são um instrumento de poder que ajuda, quem a procura, a continuar construindo um indivíduo. Um sujeito.
Aqui, abraçados à filosofia contemporânea, já chegamos chutando a porta afirmando que sujeito vem da ideia de assujeitamento, e que tudo que não queremos é estruturar um indivíduo. Muito ao contrário, nosso trabalho é destruir essa consciência que se acredita central, que se acredita o ser.
À nossa terapêutica interessa provocar pessoas a emergirem sua singularidade – que não se confunde com individualidade – mas ao mesmo tempo em que fazem emergir seu "comum".
Quem não participa ativamente da comun-idade não está, de fato, se tornando nada.
Nosso trabalho é fundamentalmente político. No sentido de resgatar o corpo de cada um. E por corpo não estamos pensando no corpo biologicizado. Esse também precisa de resgate. Mas de uma experiência de corporeidade onde a pessoa só se percebe nos encontros, só existe quando se encontra. NÃO EXISTE UM INDIVÍDUO PER SI. A pessoa só existe quando acontece, quando se encontra. Portanto, essas terapias que ficam tratando as pessoas para elas ficarem melhor e só depois, por consequência, melhorarem suas relações, já partem da premissa equivocada. Não existe esse antes e depois.
Boas relações não são consequência de boas pessoas. Porque não existem boas pessoas (essa ideia deixamos para os moralistas). Existem encontros potentes ou impotentes. Que são mais ou menos adequados. Um encontro pode ser extremamente potente para um e ser totalmente causa de drenagem de energia para outro. Os acontecimentos são únicos, os encontros são únicos e precisamos aprender a reconhecer a qualidade do que nos acontece.
A terapêutica aqui não se parece em nada com o que conhecemos por psicologia porque não parte dos mesmos fundamentos. Nossa terapêutica se fundamenta, aliás, em todos os instrumentos críticos a essa sociedade que criou essa psicologia.
Queremos colaborar no fortalecimento de pessoas combativas.
Portanto, nossa terapia não é sobre você. Não é sobre seus problemas pessoais. Mas sobre onde você está no jogo da sua sociedade, no jogo da sua civilização, no jogo do universo, porque esses são seus reais problemas pessoais. O resto é fantasia de si.
É sobre organizar suas forças, partindo de uma visão de que você é um campo de forças e não uma história isolada. Você é um processo histórico. Seus problemas não são apenas seus. NÃO EXISTEM PROBLEMAS PESSOAIS QUE NÃO SEJAM ABSOLUTAMENTE COMUNS. Todos os problemas são os mesmos entre pessoas que performam nos mesmos grupos.
O que difere é a singularidade com que o mesmo problema, o mesmo enfrentamento, é experimentado e deve ser combatido.
Ao contrário da psicologia que universaliza as diferenças e singularidades, dizendo para você que você é um indivíduo único e sua dor é única porque nasceu do seu papai e da sua mamãe, aqui buscamos essa força do comum em nós. Buscamos todas as outras dores que são como a sua. Porque é daí que vem a força de combate: do comum. E assim reconhecer o que de único tem em você, o modo como você experimenta o comum.
Mas de que combate estamos falando?
Aqui não vamos nos limitar às fronteiras da família burguesa para justificar a fonte das suas dores. A própria família burguesa já é o instrumento de poder para formar o indivíduo, que é a tecnologia de poder mais profunda. Sim, essa experiência que temos de "indivíduo" é uma tecnologia de poder implantada em você, que você performa todos os dias para sustentar o sistema todo.
Vamos combater dois mil anos de história da construção de uma civilização criada para diminuir a experiência da vida, diminuir a experiência do corpo, diminuir as forças que nos constituem, alimentando um pensamento transcendente à existência. Com deuses, ciências, conceitos pré-estabelecidos do que deve ser a existência humana. E essas tecnologias de poder só existem porque cada corpo a está reproduzindo, cada pensamento a está perpetuando, cada performatividade de pessoa a está dando vida.
Se tudo isso pareceu confuso, difícil de sentir, é porque para compreender qual é o combate é preciso estar combatendo já.
Nosso convite para uma terapia não é para fazer você se sentir melhor e sim muito pior. Sentir-se melhor dentro dessa civilização é adequar-se a ela. Queremos uma inadequação. Mas vale ressaltar que não é uma inadequação, um ativismo, um combate com mentalidade também contaminada pelos mesmos fundamentos. É sobre deslocar seus valores.
Onde você coloca seu valor? No que?
É aí que começa nossa conversa. Reorganizar a prateleira de valores que foi bagunçada pela moralidade vazia dos sistemas de opressão, colonização de pensamento, escravização de sentimentos, subjugando suas forças.
Se você quer se tratar, procure um psicólogo.
Se você quer mudar o mundo a partir da sua mudança, me manda mensagem.
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