A CRONOLOGIA DO DELÍRIO/Por Gerson Brito

A CRONOLOGIA DO DELÍRIO/Por Gerson Brito
10/05/2026


    O cenário político brasileiro parece ter entrado em um ciclo de "surto perpétuo", onde a realidade factual é constantemente sacrificada no altar da ideologia. A mais recente polêmica envolvendo uma marca de detergentes é apenas o capítulo novo de uma saga que já normalizou o absurdo.

​Para entender como chegamos ao ponto de transformar produtos de limpeza em símbolos de resistência política, é preciso olhar para a trajetória desse movimento.

​A Cronologia do Delírio

  ​O que começou com ceticismo político evoluiu para um negacionismo multifacetado que desafia a lógica básica:

​Saúde Pública: Da defesa ferrenha da cloroquina — um medicamento sem eficácia comprovada para COVID-19 — ao desencorajamento vacinal com teorias conspiratórias sobre mutações genéticas.

​Misticismo Patriótico: Momentos que beiram o surrealismo, como as vigílias para pneus e as cenas de manifestantes pendurados em para-choques de caminhões na tentativa vã de anular um processo democrático.

​Guerra Cultural de Consumo: Agora, o boicote ou a defesa fervorosa de marcas (como a Ypê) baseada em interpretações distorcidas de apoio político, transformando o carrinho de supermercado em uma trincheira ideológica.

​O Negacionismo como Projeto

​Não se trata apenas de desinformação orgânica; é um projeto político permanente. Ao manter a base em um estado de alerta constante contra inimigos imaginários ou instituições técnicas, o extremismo consegue:

​Deslegitimar a Ciência: Se a vigilância sanitária ou as instituições de saúde são vistas como "inimigas", qualquer regulação vira "opressão".

​Erodir a Confiança Institucional: Quando se questiona a urna, a vacina e até a educação básica, o único norte que resta ao seguidor é o líder.

​Substituir o Debate por Performance: Não se discute mais economia ou segurança; discute-se o "significado oculto" de uma propaganda ou a cor de um rótulo.

​O Cansaço da Razão

​O sentimento de medo e exaustão é legítimo. É desgastante ter que reafirmar, em pleno século XXI, que a Terra é redonda, que vacinas erradicaram doenças e que o Estado Democrático de Direito não é opcional.

​Quando a disputa deixa de ser entre projetos de país e passa a ser entre a razão e o delírio, a sociedade corre o risco de estagnar. A vigilância sanitária, o direito ao voto e o acesso à educação não deveriam ser tópicos de "opinião", mas sim conquistas civilizatórias inegociáveis.

​O grande desafio do futuro não é apenas vencer eleições, mas reconstruir um tecido social onde o óbvio não precise ser defendido com tanto esforço. Enquanto o detergente for tratado como munição ideológica, a política continuará sendo um espetáculo do absurdo em vez de uma ferramenta de progresso.




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