
Parece insano, ou até mesmo impossível conceber uma consciência capaz de olhar para si mesma, saber-se existente e, deste mesmo saber, extrair a percepção de que sua existência é temporária. Quando olho o fim próximo e, depois dele, a mais completa ausência de mim mesmo, todas as coisas que faço, penso e sinto, tendem a tornar-se irrelevantes, dispensáveis e inúteis. Se não estarei além do meu cadafalso, de que vale minha existência, todos os meus sonhos, projetos e esperanças? Melhor deixar que os dias se encarreguem de levar-me de volta à terra, e que nela me dissolva sem maiores questionamentos e lamentações. O pensamento vaga pela tarde, observando todas as coisas em busca de soluções que abram passagem a um futuro glorioso, talvez à eternidade, mas às primeiras cores do crepúsculo instala-se o silêncio da verdade, que se diz única e imorredoura. E no entanto, ainda que inabalável, ela não anula o fato de que houve Einstein e Beethoven, e que, apesar de sua pequenez diante do gigantesco universo, e sua natureza passadiça perante a eternidade, eles tiveram suas existências lançadas no infinito. Eram, como eu, aglomerados de átomos, formados por partículas cujas estratégias construtivas estavam além do seu alcance. Suas estruturas físicas, como a de todos os seres vivos, em breve teriam desaparecido, seus corpos dissolvidos e reincorporados à terra. Mas ainda assim, eram existências soberbas e justificáveis em si mesmas. Talvez os habitantes das galáxias distantes não venham a saber da Quinta Sinfonia, ou da Teoria da Relatividade, porém no mais exuberante dos planetas da Via Láctea, sim, elas existem e continuarão repercutindo pelos séculos. Até que se esgote o último homem ou mulher, este planeta saberá de Einstein e Beethoven. E mesmo aqueles que não compuseram uma sinfonia, nem mesmo ganharam o Prêmio de Ciências da Escolinha Dona Genoveva, sim, eles estiveram aqui da forma mais completa. Realizaram fatos admiráveis, como plantar um pé de jabuticaba ou ajudar uma idosa a atravessar a rua. Saltaram no fogo para salvar uma criança, escreveram uns versos, compuseram algumas canções, ou tão somente semearam uns pés de milho. Suas existências foram admiráveis, mesmo que suas ações tenham sido pouco mais do que levantar às oito, comer, beber e dormir às vinte e duas. E essas existências, mesmo depois que se acabaram, estiveram presentes e representaram uma presença soberba, na sua casa, na sua cidade, no seu país, no planeta Terra. Então não há justificativa para desfazer e tornar inúteis nossas pequenas e frágeis vidas. Porque elas são grandes por princípio. São perfeitas dentro do pequeno espaço onde agem, onde amam e onde morrem.
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