RESPONSABILIDADE DE SER E DE VIR A SER/ Por Dani Nefussi

RESPONSABILIDADE DE SER E DE VIR A SER/ Por Dani Nefussi
15/05/2026


    A questão mais comum que encontro trabalhando com pessoas é sobre como temos imensa dificuldade em sermos responsáveis. O quanto é difícil se tornar responsável e adulto.

Nossa sociedade colabora para nos manter infantis por meio de artifícios que já nem percebemos. Em todas as instâncias somos tratados como crianças e incentivados a não nos tornarmos responsáveis.

   Nosso método educacional, por exemplo, é autoritário e não cultiva nossa autonomia na relação com o conhecimento. Aprendemos a decorar e a reproduzir ideias, não desenvolvemos criatividade e, pior, o conhecimento é cartesiano e racional, alienado do corpo. Estamos falando disso faz tempo e mudamos muito pouco.

  É o corpo que sustenta qualquer conhecimento, para torná-lo vida e potência. Porque sem corpo o conhecimento é informação inútil, quantitativa.

     Nossa medicina é ainda pior. Você vai ao médico, que está sempre sentado em sua arrogância como se soubesse mais de você do que você mesmo, só porque estudou seus mecanismos, seus funcionamentos — como se você fosse uma máquina que tem de funcionar exatamente como ele estudou que deveria. Se você pensar direito, é risível. Mas o que importa aí é tirar de você o poder e a responsabilidade sobre si mesmo. Então você entrega seu corpo e sua saúde ao que esse outro vai dizer para você fazer. Não é que não possamos confiar nas especialidades, mas o modo passivo com que nos entregamos é alienação de si.

  Do mesmo modo vamos encontrar isso nos consultórios de psicologia e psiquiatria. As pessoas não querem fazer esforço para se domar. Não querem travar o importante combate que deve ser vivido contra as estruturas autoritárias que foram internalizadas em cada um de nós. Querem controlar os sintomas com medicações e deixar a causa pra debaixo do tapete.

 Mesmo nas questões espirituais ficamos delegando nossos processos para as beberagens e seus pajés, para os aléns, como se tudo fosse se resolver em, literalmente, um passe de mágica.

Ser livre é um esforço — mas um esforço no sentido de aumento de potência, e não de trabalho desgastante e cansativo. É a construção de VALOR.

  Assim, nos comportamos como crianças mimadas, que não conseguem assumir as responsabilidades necessárias porque não querem crescer e assumir suas escolhas. Pessoas que passam suas vidas culpando os outros pelo que lhes acontece — e esse outro pode ser uma pessoa ou uma circunstância.

Quanto tempo passamos paralisados, repetindo histórias tristes porque ficamos culpando as circunstâncias? E realmente estamos sendo arrastados e escravizados por elas, em vez de sermos donos do nosso tempo, do nosso corpo, do nosso desejo.

 Essa infantilização é diariamente reforçada pela manipulação do nosso desejo. Todos sabemos que nossos desejos são capturados, mas não enxergamos nisso o centro do nosso problema de dificuldade em assumir responsabilidades.

E não estou falando das responsabilidades da chamada "vida prática". Estou falando de você ser responsável pelo que você pode vir a ser.

Como assim?

   Você sabe que não deve fazer tal coisa porque não lhe traz saúde, mas faz. Seus vícios, seus maus hábitos, suas procrastinações, suas permissividades — deixar-se conviver com pessoas que investem na perversidade humana, no autoritarismo, na diminuição da vida e dos seres humanos.

    Parar de entregar nas mãos dos médicos, dos professores, dos pastores as direções da sua vida. Ninguém sabe mais de você do que você mesmo. Mesmo que esteja adormecido e alienado de si, é só você que pode saber de si.

 Qualquer trabalho de conhecimento que não o leva na direção da autonomia, e não colabora para que você se perceba como expressão única e potente da vida, pode estar apenas ajudando você a se subjugar.

E toda essa mudança é o sentido de responsabilidade que estou sugerindo. 

   Levantar da cama e dizer: hoje vou resolver isso em mim. Hoje vou colocar aquele limite, escolher aquele desejo, responder aquele abuso. Hoje vou parar de dar espaço para a criança que arrastei até aqui, que delega as causas para fora de si, e assumir o que vim fazer, o que quero me tornar, como um projeto assertivo de existir.


Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário