
A Bolívia vive há mais de uma semana mais um importante levante popular. O país tem essa singularidade. Seja quem esteja no governo, quando a população decide se rebelar, ela se organiza e avança em luta, realizando marchas e bloqueios nas estradas. São as marcas indeléveis do modo de organização comunitária milenar que o sistema capitalista não logrou eliminar. Desde que Rodrigo Paz assumiu o governo em novembro de 2025, as comunidades se movimentam, porque suas propostas de mudança tocam em questões muito raizais. Uma delas foi o Decreto 5503, um pacotaço com medidas sócias e econômicas que estrangularam ainda mais a vida da população enquanto ofereceu facilidades aos empresários. Depois veio a Lei 1720 que permitia a hipoteca da terra das pequenas propriedades bolivianas, tornando-as ativos financeiros, o que poderia esgarçar de vez o tecido social comunitário. Na verdade, a finalidade mesmo era de promover a venda das pequenas propriedades para ampliar ainda mais a concentração de terra das grandes empresas.
Estas duas medidas foram estopim de protestos.
Os camponeses realizaram uma caminhada que durou 24 dias, saindo de vários cantos do país em direção à capital, La Paz. O objetivo era anular a Lei 1720. Segundo eles, ao abrir possibilidade de hipotecar as terras toda uma forma de vida seria destruída no país. Os camponeses entendem a terra como um espaço de vida e não como mercadoria. A marcha do povo do campo acabou incentivando outras categorias de trabalhadores ao protesto e a ele se somaram os professores, os mineiros e a Central Obrera. Premido pelos bloqueios o presidente revogou a Lei 1720, dando um prazo de 60 dias para o parlamento discutir um novo texto acerca do tema fundiário.
Ainda assim, a marcha não parou. Os efeitos do decreto 5503 seguem expondo a população à fome e ao desemprego, por isso a Central Obrera Boliviana chamou uma greve geral reivindicando o aumento do salário mínimo em 20%.
Ontem a cidade de La Paz estava praticamente cercada pelos bloqueios e já começava a se registrar desabastecimento. O governo iniciou um ataque ao movimento buscando negociar com as categorias em separado, mas apesar de alguns acordos firmados, a grande massa de trabalhadores segue alçada em rebelião agora exigindo a queda de Rodrigo Paz. Ontem, uma massiva assembleia em El Alto mostrou a força do protesto que tende a crescer com mais uma caminhada que inicia hoje em Cochabamba, promovida pelos partidários de Evo Morales.
O ex-presidente, que tem uma ordem de captura em aberto, denunciou ontem um plano dos Estados Unidos, articulado com o governo boliviano, para assassiná-lo e isso só esquentou ainda mais o clima no país.
Os jornais e hoje no país replicam entrevistas de dirigentes policiais denunciando que os manifestantes estão com explosivos, o que pode ser já uma dica de que as forças policiais devem recrudescer a repressão. Paz diz que não vai causar um “derramamento de sangue” e chamou para um “diálogo produtivo”.
Esta semana deve ser decisiva já que os bloqueios paralisam o país.
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