O QUE FALTA PARA FUNCIONAR O ESTADO DA PALESTINA?/ Por João Gomes

O QUE FALTA PARA FUNCIONAR O ESTADO DA PALESTINA?/ Por João Gomes
23/05/2026


   Há mapas que desmentem discursos inteiros. Este é um deles.

Quando se olha para o mapa do reconhecimento internacional do Estado da Palestina, percebe-se uma realidade simples e brutal: a esmagadora maioria do mundo reconhece a Palestina como Estado soberano. Cerca de 146 países já o fizeram. Da América Latina à África, da Ásia à Europa, cresce o consenso de que os palestinianos têm direito ao mesmo que qualquer outro povo - território, soberania, fronteiras, instituições e dignidade nacional.

  E, no entanto, a Palestina continua sem funcionar como um Estado pleno. A pergunta impõe-se: porquê? A resposta não está na ausência de reconhecimento diplomático. O problema não é jurídico. O problema é político, militar e geoestratégico. A Palestina existe no papel internacional, mas continua impedida de existir na prática.

  Nenhum Estado do mundo pode funcionar normalmente quando não controla as suas fronteiras, o seu espaço aéreo, os seus recursos, os seus movimentos internos e até o registo da sua própria população. Nenhum Estado é verdadeiramente soberano quando outro decide quem entra, quem sai, quem circula, quem trabalha, quem recebe ajuda humanitária ou quem pode reconstruir uma escola bombardeada.

   É aqui que reside a grande contradição do século XXI: o mundo reconhece a Palestina, mas tolera que esse reconhecimento seja permanentemente bloqueado pela realidade imposta no terreno por Israel.

Israel argumenta segurança. E nenhum observador sério pode ignorar que o Estado israelita vive há décadas num ambiente de conflito, trauma histórico e medo existencial. E a grande culpa começa por ser deles próprios, desde a NAKBA em que procederam á expulsão dos palestinos do território que lhes pertencia. Mas mesmo a ideia de "segurança" não pode transformar-se numa licença perpétua para negar a existência política de outro povo.

    Porque o que hoje existe já ultrapassa largamente a lógica defensiva. Existe ocupação prolongada. Existe expansão contínua de colonatos. Existe fragmentação territorial. Existe bloqueio. Existe dependência total. Existe um sistema em que um povo controla tudo e o outro quase nada. E o mais impressionante é que isto acontece apesar da oposição formal da maioria do planeta.

  A ONU aprova resoluções. Tribunais internacionais fazem advertências. Governos condenam. Diplomatas discursam. Mas nada muda de forma estrutural. Porquê? Porque o sistema internacional não funciona segundo princípios morais; funciona segundo relações de poder.

Israel possui um dos exércitos mais sofisticados do mundo, apoio decisivo dos Estados Unidos, influência estratégica no Ocidente e uma narrativa histórica enraizada na memória europeia após o Holocausto. Essa combinação cria uma espécie de escudo político internacional quase sem paralelo.

  O mundo reconhece a Palestina - mas não está disposto a impor consequências reais à continuação da ocupação. E aqui emerge uma verdade: o direito internacional tornou-se seletivo. Há países sancionados por invasões. Há economias destruídas por violações territoriais. Há intervenções rápidas quando certos interesses são ameaçados.Mas no caso palestiniano, o direito internacional entrou num estado de suspensão permanente.

   Isso destrói a credibilidade do próprio sistema global. Porque um povo olha para as instituições internacionais e conclui: “Reconhecem-nos, apoiam-nos, votam por nós… mas nada muda.” E outro povo olha para o mesmo sistema e conclui: “Podemos continuar a matar até ao genocídio, porque ninguém nos vai realmente impedir.” Este é o verdadeiro veneno político da questão palestiniana: a normalização da impotência internacional.

A Palestina tornou-se um Estado reconhecido sem soberania real.

Um país aceite simbolicamente, mas inviabilizado concretamente.

Uma nação autorizada a existir em discursos - mas não plenamente no terreno. E enquanto isso continuar, a violência também continuará.

Porque não existe estabilidade duradoura onde há humilhação coletiva permanente. Não existe paz sustentável onde milhões de pessoas vivem sem horizonte político. E não existe solução militar para uma questão nacional.

    A tragédia é que os israelitas como acabaram prisioneiros de lideranças incapazes de imaginar coexistência verdadeira com e extremismos religiosos e nacionalistas em crescimento. Mas uma coisa permanece evidente: a inexistência funcional do Estado palestiniano já não pode ser explicada pela falta de reconhecimento internacional.

   O mundo já reconheceu. O que falta é vontade política internacional para transformar reconhecimento em realidade. E talvez essa seja a conclusão mais dura de todas: a Palestina expõe os limites reais da ordem mundial contemporânea. Mostra que o direito internacional tem fronteiras. Mostra que a moral diplomática é frequentemente subordinada à força. E mostra que, no século XXI, um povo pode existir oficialmente perante o mundo inteiro - e continuar impedido de existir plenamente no mapa da vida real.


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