
Certos acontecimentos parecem surgir como episódios isolados, dispersos no ruído permanente da atualidade. Mas, vistos em sequência, revelam um padrão inquietante: a normalização da sabotagem como instrumento geopolítico entre potências nucleares.
Uma notícia recente indica de que explosivos magnéticos foram encontrados no casco do petroleiro Arrhenius, no porto russo de Ust-Luga, vem precisamente nesse contexto. As autoridades russas indicam que os dispositivos seriam de fabrico pertencente a países da NATO. Seria intelectualmente desonesto ignorar que, nos últimos anos, o teatro marítimo e energético europeu se transformou numa zona cinzenta de operações clandestinas, sabotagens e ações encobertas.
A pergunta que começa a emergir, mesmo que camulflada nos círculos diplomáticos, é inevitável: estaremos perante operações conduzidas ou toleradas por serviços secretos ocidentais?
A simples formulação da hipótese já basta para provocar indignação imediata em muitos meios políticos e mediáticos ocidentais. Mas convém recordar que o impensável de ontem rapidamente se transforma no “plausível” de hoje. Também parecia impensável que gasodutos estratégicos como o Nord Stream 1 e 2 fossem destruídos no fundo do Mar Báltico - uma das maiores infraestruturas energéticas da Europa reduzida a destroços numa operação de enorme sofisticação técnica. E, no entanto, aconteceu. E, hoje, sabe-se que o ocidente esteve envolvido.
Inicialmente o atentado contra os Nord Stream permanecia oficialmente envolto em nevoeiro político. As versões multiplicam-se. Fala-se de grupos ucranianos, operações privadas, embarcações alugadas, mergulhadores improvisados. Mas muitos especialistas militares e analistas de energia continuam a considerar extremamente improvável que uma ação daquela complexidade tenha ocorrido sem apoio estatal, inteligência avançada e capacidades militares sofisticadas do ocidente.
Mais importante ainda: independentemente de quem executou a operação, a destruição dos Nord Stream constituiu objetivamente um ato de terrorismo contra infraestrutura civil energética internacional e que, hoje, se reflate na economia europeia.
Essa realidade foi rapidamente diluída no discurso político ocidental porque os alvos pertenciam à Rússia e porque os interesses estratégicos resultantes acabaram por favorecer determinados alinhamentos geopolíticos: enfraquecimento energético russo, separação estrutural entre Alemanha e Rússia, dependência europeia acrescida do gás natural liquefeito norte-americano e reforço da disciplina atlântica no interior da NATO.
O mais perturbador talvez nem seja o ato em si, mas a reação do chamado “Ocidente democrático”. Não houve indignação global proporcional. Não houve cobertura mediática permanente. Não houve “guerra contra o terrorismo”. Pelo contrário: instalou-se um silêncio estranho, quase cúmplice. É precisamente esse silêncio que hoje alimenta suspeitas em torno de novos incidentes marítimos.
Se explosivos foram realmente colocados num navio civil com destino à Rússia, estamos perante algo extremamente grave. Não apenas pelo risco ambiental ou humano, mas porque representa a expansão da guerra híbrida para corredores comerciais internacionais. O Mar Báltico, o Mar Negro e mesmo rotas comerciais europeias começam a adquirir características de zonas de conflito informal onde sabotagem, drones, guerra eletrónica e operações clandestinas coexistem abaixo do limiar da guerra declarada. E há aqui um problema moral e político enorme.
Durante décadas, as potências ocidentais reivindicaram para si o monopólio discursivo da “ordem internacional baseada em regras”. Porém, quando infraestruturas são destruídas, navios sabotados ou atentados encobertos realizados contra adversários geopolíticos, o vocabulário muda subitamente. O terrorismo passa a ser “operação especial”. A sabotagem torna-se “ação defensiva”. O direito internacional converte-se numa ferramenta seletiva, aplicada conforme o alinhamento do alvo.
O problema das guerras secretas é que raramente permanecem secretas para sempre. E quando potências nucleares começam a aceitar sabotagens recíprocas como instrumento legítimo de confronto indireto, o risco de escalada acidental aumenta exponencialmente.
Hoje fala-se de minas magnéticas em petroleiros. Ontem foram gasodutos submarinos. Amanhã poderão ser cabos de internet transcontinentais, terminais portuários, centrais energéticas ou navios de passageiros.
A questão já não é apenas “quem fez?”. A questão central tornou-se mais inquietante: quantos atos de guerra clandestina estão a ser normalizados diante dos olhos do mundo enquanto os cidadãos europeus continuam convencidos de que vivem apenas uma “crise diplomática”?
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