CONVERSAS ENTRE SURDOS OU CONSCIENTES/ Por João Gomes

CONVERSAS ENTRE SURDOS OU CONSCIENTES/ Por João Gomes
05/06/2026


    Passados mais de doze anos desde o início da crise ucraniana de 2014 e mais de quatro anos desde a "operação especial" russa de 2022, a palavra *paz* continua a surgir nos discursos de praticamente todos os intervenientes. Presidentes, diplomatas, organizações internacionais e comentadores políticos repetem que desejam o fim das hostilidades. Contudo, entre as declarações e a realidade permanece um abismo difícil de ignorar.

Ao longo dos últimos anos têm surgido repetidamente sinais de abertura para um eventual diálogo entre Kiev e Moscovo. No entanto, cada nova tentativa esbarra em condições prévias, exigências estratégicas e interpretações incompatíveis sobre as causas e as consequências do conflito.

  Recentemente, Zelenskyi manifestou mais uma vez e em "carta aberta" a disponibilidade para conversações que possam conduzir a um cessar-fogo ou a um acordo político. Do lado russo, Putin declarou estar disposto a dialogar, mas apenas com base em pontos concretos e objetivos claramente definidos, insistindo que a realidade militar e territorial entretanto criada não pode ser ignorada.

A questão central é saber se essa iniciativa de Zelenskyi representa um verdadeiro caminho para a paz ou apenas mais um capítulo de uma longa sequência de declarações sem consequências práticas e a que se segue mais um ataque de carater terrorista a uma escola de crianças ou a tentativa mediática de evitar uma conferência internacional económica em território russo. A secreta britânica está sempre disponivel para mais algumas informações que dão uma ajuda.

    A guerra encontra-se hoje numa fase muito diferente daquela que existia em 2022. A Ucrânia continua a resistir graças à mobilização dos seus recursos internos e ao apoio militar, financeiro e logístico dos seus aliados ocidentais. Sem esse apoio, muitos observadores consideram que a capacidade de resistência ucraniana teria sido profundamente limitada. Por outro lado, a Rússia consolidou posições territoriais que considera irreversíveis e que afirma não estar disposta a devolver, transformando esses ganhos num dos maiores obstáculos a qualquer entendimento futuro.

  Neste contexto, a continuação do conflito parece resultar da incompatibilidade dos objetivos estratégicos de ambas as partes. Kiev continua a defender a recuperação dos territórios ocupados e a preservação da integridade territorial da Ucrânia. Moscovo considera que as alterações territoriais ocorridas ao longo da guerra constituem uma realidade consumada que deverá ser reconhecida em qualquer negociação séria.

Entre estas duas posições existe uma distância política, militar e psicológica que nenhum comunicado diplomático conseguiu ainda reduzir.

  Entretanto, a guerra prossegue e o preço humano continua a aumentar. Milhares de soldados continuam a morrer ou a sofrer ferimentos incapacitantes. Milhões de civis permanecem deslocados. Famílias foram destruídas. Comunidades inteiras desapareceram. A Ucrânia enfrenta crescentes dificuldades na mobilização de novos combatentes, refletindo o desgaste acumulado de uma sociedade submetida a um conflito prolongado. Ao mesmo tempo, a Rússia continua a absorver os custos humanos, económicos e sociais decorrentes de uma guerra que se transformou num dos mais longos confrontos militares da Europa contemporânea.

      É precisamente neste ponto que emerge uma questão frequentemente ignorada pelos dirigentes políticos e pelos meios de comunicação: até que ponto os valores democráticos permanecem intactos quando uma sociedade vive durante anos sob um regime de exceção?

A democracia é frequentemente apresentada como a defesa da liberdade individual, da autodeterminação dos povos e dos direitos fundamentais. Contudo, em períodos de guerra prolongada, esses princípios entram inevitavelmente em tensão com as exigências da sobrevivência nacional.

    Na Ucrânia, a manutenção da lei marcial impede a realização de eleições nacionais e sustenta um sistema de mobilização obrigatória e forçada que continua a gerar controvérsia. Muitos cidadãos consideram esses sacrifícios indispensáveis para a defesa do país. Outros interrogam-se sobre os limites da autoridade do Estado e sobre o preço humano que continua a ser exigido à população.

Esta realidade coloca questões que vão muito além da Ucrânia. Interpela igualmente as democracias ocidentais que afirmam defender determinados valores universais enquanto apoiam, política, financeira e militarmente, a continuação do esforço de guerra.

   Até que ponto podem as liberdades individuais ser restringidas sem comprometer os próprios princípios que se pretende proteger? Até onde pode uma sociedade sacrificar direitos em nome da "segurança coletiva" que dizem ser posta em causa? E durante quanto tempo pode uma democracia funcionar em regime de exceção sem que isso produza consequências profundas sobre a sua própria natureza?

     Talvez a verdadeira questão já não seja quem possui mais razão histórica, mais legitimidade moral ou mais capacidade militar. Talvez a questão essencial seja outra: quantas vidas ainda terão de ser sacrificadas antes que as partes aceitem discutir não a paz ideal, mas a paz possível?

A História demonstra que a maioria das guerras não termina quando uma das partes alcança todos os seus objetivos. Terminam quando os custos da continuação do conflito se tornam superiores aos benefícios que cada lado acredita poder alcançar.

  Se as recentes manifestações de abertura ao diálogo forem genuínas, poderão constituir um primeiro passo nessa direção. Mas se permanecerem subordinadas a condições incompatíveis, objetivos maximalistas e desconfianças acumuladas ao longo de anos de combate, continuaremos perante aquilo que muitos cidadãos já começam a suspeitar. Não uma conversa entre conscientes. Mas uma conversa entre surdos.

E enquanto os líderes discutem condições, linhas vermelhas, garantias de segurança, territórios e interesses estratégicos, continuam a ser os soldados, os deslocados, os órfãos, as viúvas e os civis de ambos os lados a suportar o preço mais elevado.

   A paz raramente satisfaz plenamente vencedores ou vencidos. Mas a continuação indefinida da guerra satisfaz cada vez menos os povos que a suportam. E, num determinado ponto, talvez tenha chegado o momento de substituir a lógica da vitória absoluta pela coragem do compromisso possível. Porque, por vezes, a verdadeira consciência política não consiste em vencer uma guerra. Consiste em saber terminá-la.




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