Com “Persépolis”, em 2000, a autora (1969-2026) mostrou a repressão, fez de um livro um símbolo de liberdade e levou-nos a admirar toda uma obra que abordou a experiência humana como poucas. Ana Bárbara Pedrosa para o Observador:
Depois de Persépolis, tornou-se muito difícil falar-se da literatura iraniana ou sobre o Irão que não incluísse o nome de Satrapi (que morreu esta semana aos 56 anos). Com cunho autobiográfico, o livro mostra a vida sem pó de arroz, mostrando não só um país, mas também um povo inteiro. Sobretudo, mostrando as mudanças abruptas que, por via da política, se fazem sentir na vida das pessoas. São essas pessoas que a autora traz à narrativa, já que, ao mostrar a influência de uma revolução nas vidas quotidianas, o Irão deixa, para quem não lá vive, de ser um mero conceito geopolítico ou uma terra ao longe ou uma teocracia indefinida, para passar a ser um chão comum à vida daquela gente.
Parecerá pouco, mas não o é: é o que faz a diferença entre um olhar distante, que se prenda à frieza argumentativa, e um olhar literário, mais empático, que responda à vida real. É que, durante décadas, o imaginário ocidental sobre o país consistia nas imagens que passavam nos telejornais, regra geral com líderes religiosos, multidões em manifestações, mulheres desumanizadas por véus, ameaças nucleares, discursos inflamados, até bélicos. Era um país transformado em símbolo, quase em caricatura. Era difícil nivelá-lo como mais do mesmo: para uns, funcionava como símbolo do fanatismo; para outros, como resistência ao imperialismo. Fosse como fosse, o Irão parecia sempre algo abstrato.

A arte de Marjane Satrapi fez outra coisa. De repente, eis o território humano, entregue aos olhos do mundo inteiro, num livro que venceu o Festival Literário de Banda Desenhada de Angoulême. Tornou-se até impossível falar-se de novelas gráficas coetâneas sem se referir Satrapi. E Persépolis, entre vários méritos, ainda tem uma escolha de olhar acertada, incisiva: em vez de um politólogo, de um adulto em desgosto com a vida, de um activista, temos a Revolução Islâmica vista através do olhar de uma criança. Não há, por isso, uma voz autoral de um derrotado ou de um vencido, ou sequer de um especialista; há a de alguém que tenta entender a Revolução ao mesmo tempo que tenta entender o mundo.
A personagem, espelho da própria, ou assim é dito, é convincente por não tentar sê-lo. Tudo ali tem a voz de uma criança, em parte por não querer ser épica ou heróica ou explicativa: é curiosa, insolente, contraditória. Admira revolucionários e ouve música ocidental. Quer justiça social e sapatilhas que estejam na moda. Revolta-se contra a opressão e muitas vezes não se entende exactamente com que se revolta. Ora, tudo isto nos dá o regime político a ser vivido por uma pessoa concreta, não apenas por comentadores de televisão. A História não é apenas o conjunto de análises ou de argumentos; é o que acontece nas casas das pessoas, nos quartos dos miúdos, nas conversas de família, e os pequenos gestos do quotidiano marcam o ponto da liberdade, entendendo-se se foi perdida ou conquistada. Por isso, a escrita sobre o Irão é, aqui, a escrita sobre a forma como os sistemas políticos se imiscuem na vida privada, moldando-a, e sobre como o medo delineia formas de estar.

Além de tudo isto, Satrapi conseguiu este efeito a partir da banda desenhada, chutando para canto qualquer ideia de que a novela gráfica era uma arte menor. Assim, uma conjunto de imagens a preto e branco balonadas conseguiu atingir uma profundidade semelhante à dos grandes romances. E a aparente simplificação (linhas limpas, composições austeras, pouco detalhe, sem grande escala de cores) era enganadora: tudo o que está ausente foi escolhido a dedo, e os espaços em branco obrigam o leitor a mexer-se, completando o sentido. Aliás, o próprio contraste entre preto e branco cria uma ideia de intensidade emocional que dispensa ornamentação, folclore.
Ora, tudo isto ajuda a que o livro tenha envelhecido tão bem, e fala-se aqui de Persépolis porque é, de longe, a obra mais ampla de maior sucesso de Satrapi. Ainda assim, a autora não pode ser reduzida à sua magnum opus. Passou as duas décadas seguintes a abrir tentáculos para outras zonas da experiência humana: em Bordados (2003), por exemplo, que talvez seja o mais engraçado dos seus livros, a autora parece afastar-se dos grandes movimentos da História para nos pôr no centro de um grupo de mulheres que conversam após um almoço de família. Num livro em que são desmontados estereótipos sem que seja necessário nomeá-los, a autora parte das histórias e das memórias das personagens e, em vez da imagem monolítica que tantas vezes se associa ao Irão, encontram-se mulheres complexas, sarcásticas, que se riem de si e dos homens das suas vidas.

Já Frango com Ameixas (2004) encontra-se mais próximo da fábula, acompanhando os últimos momentos da vida de um músico iraniano que, após ter perdido o seu instrumento, decide deixar-se morrer. Neste livro, a autora mostra-se menos política, e o Irão aparece como atmosfera, e não como tema central. Mesmo aí, a autora parece enfrentar a pergunta que lhe atravessa a produção literária: onde se situa uma pessoa cujo lugar de proveniência deixa de coincidir com o lugar onde vive? O exílio tornou-se um dos grandes temas da iraniana, que escreveu de forma ampla, sem que a pertinência e o interesse da obra dependessem do seu contexto temporalmente definido. Em vez disso, incidiu em experiências humanas horizontais, fundamentais: crescer, partir, regressar, sentir-se nacional e estrangeira ao mesmo tempo.
Ao deixar o Irão para viver na Europa, levou para a literatura uma sensação partilhada por milhões: a de sair de um país sem que esse país fique totalmente ao longe. O exílio passa, por isso, a ser condição existencial, já que o exilado fica entre os dois mundos, pertencendo parcialmente a ambos. Ao fazer dessa experiência uma forma de conhecido, a autora recusou as caricaturas produzidas tanto pelo Ocidente quanto pelo regime iraniano. Em relação aos iranianos, recusava a narrativa de um povo que era vítima ou fanático, registando, na sua literatura, uma realidade mais complexa – e mostrando-a ao leitor.
Persépolis continuará a ser uma obra maior da literatura, não apenas da banda desenhada. No livro, temos uma personagem que é, em concomitância, patriota e crítica do país, herdeira da cultura e rebelde contra o governo; que traz para o campo literário a perda da infância, da inocência, da pátria, das ilusões; que mostra que a liberdade não é um estado permanente, antes uma correlação de forças, uma decisão do dia-a-dia. Coisa pouca não será.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.
[O blog tem custos e a seleção, edição e publicação é feita exclusivamente pelo blogueiro. Considere colaborar com qualquer valor. Pix: otambosi07@gmail.com - Muito obrigado]

