GRANDE PERDA/ Por Adriana Dweck

GRANDE PERDA/ Por Adriana Dweck
20/06/2026

     Hoje tomei conhecimento da morte da filósofa e feminista italiana Luisa Muraro. Com ela compreendi que um dos problemas fundamentais da subjetividade contemporânea reside na substituição do corpo humano pela tela.

    A forma mais profunda de precariedade psíquica é constituída pelo acesso ao mundo da linguagem. Quando se fala em acesso à linguagem, penso naquilo que Luisa Muraro desenvolve em “A ordem simbólica da mãe”. Nessa obra, o ingresso na linguagem é concebido como a condição pela qual se torna possível a constituição de um vínculo efetivo entre significante e significado. O sentido das palavras não é dado por sua funcionalidade intrínseca, mas é instituído pela confiança que nelas pode ser depositada graças à mediação de um corpo falante. É na relação com esse corpo que a linguagem deixa de ser um sistema abstrato de signos para ser investida de espessura afetiva e existencial. As palavras tornam-se cognoscíveis não apenas como instrumentos de comunicação, mas como portadoras de um mundo compartilhado, cuja consistência simbólica é sustentada pela presença viva daquele que fala.

  Embora seu pensamento dialogue de modo intenso com a fenomenologia, a psicanálise e autores como Merleau-Ponty e Agamben, Luisa Muraro jamais se deixou reduzir a essas influências. Sua obra conserva uma voz singular, marcada pela centralidade da relação, da linguagem e da ordem simbólica da mãe, oferecendo uma das reflexões mais originais da filosofia contemporânea sobre a constituição da experiência humana.

Grande perda.


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