Será que Lula vai sobreviver à onda da direita na América Latina? - por José Fucs

Será que Lula vai sobreviver à onda da direita na América Latina? - por José Fucs
26/06/2026


Cercado por governos conservadores na região, o presidente tem o desafio de manter a trincheira da esquerda no Brasil, nas eleições de outubro. José Fucs para o UOL:


E foi-se mais uma trincheira da esquerda na América Latina. Agora, foi a vez da Colômbia, onde o presidente Gustavo Petro —o ex-guerrilheiro do M-19 que chegou ao poder em 2022— viu seu candidato nas eleições de domingo, Iván Cepeda, ser defenestrado pelo concorrente da direita, Abelardo de la Espriella.

Com a vitória de Espriella, o cerco a Lula e à esquerda na região vai se fechando. Desde 2025, a direita e a centro-direita ganharam todas as seis eleições disputadas na América Latina —no Chile, na Bolívia, em Honduras e na Costa Rica, além da Colômbia e do Peru, com a confirmação do triunfo de Keiko Fujimori. Das 16 eleições realizadas desde 2023, a direita levou 12. Só perdeu no México, na Venezuela, da forma que a gente viu, no Uruguai e na Guatemala.

Embora a esquerda ainda mantenha suas bases no Brasil e no México, os dois países com as maiores populações e as duas maiores economias regionais, que representam cerca de 65% do PIB (Produto Interno Bruto) latino-americano, as forças conservadoras já controlam 13 dos 20 países independentes da região, se incluirmos na conta o Haiti, onde o governo interino também se alinha ideologicamente ao bloco.

Obviamente, todos ou quase todos os governantes de direita eleitos no período são classificados como de extrema direita ou ultradireita pela esquerda e por seus representantes e porta-vozes na academia e na imprensa.

Invariavelmente, eles também são apresentados como ameaças à democracia —aquela que, muitas vezes, a esquerda é a primeira a relativizar, ao opor sua visão sobre o sistema à dos que ousam acreditar que "a liberdade é mais importante do que o pão", nas palavras do grande Nelson Rodrigues (1912-1980) numa de suas crônicas imortais, à qual deu o título de "O ex-covarde".

É o velho recurso da esquerda para tentar deslegitimar os líderes da direita e impulsionar a narrativa de que eles são um bando de agentes do mal, que vão colocar em xeque as "conquistas" obtidas quando a esquerda estava no poder, apesar de terem recebido o apoio da maioria dos eleitores de seus países.

Apoio de Trump

Muitos analistas têm atribuído a guinada política da América Latina ao apoio recebido do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após seu retorno ao governo, em janeiro de 2025. Mas, ainda que Trump tenha dado uma contribuição relevante para alavancar seus aliados na região, o movimento começou antes de sua posse para o segundo mandato.

O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, foi eleito em 2019 e reeleito em 2024. Javier Milei na Argentina, Santiago Peña no Paraguai e Daniel Noboa no Equador elegeram-se em 2023. Já José Mulino no Panamá e Luis Abinader na República Dominicana ganharam as eleições em 2024. Isso sugere que a virada à direita é um fenômeno bem mais amplo, que se espalha hoje pelo mundo, do qual o próprio presidente americano provavelmente se beneficiou também.

Mesmo assim, após a posse de Trump, só representantes da direita venceram eleições na região. Curiosamente, segundo Mike Benz, ex-funcionário do Departamento de Estado no primeiro mandato de Trump, isso coincidiu com o fechamento da Usaid, a agência internacional de ajuda dos EUA, que teria injetado milhões de dólares em ONGs de esquerda latino-americanas para turbinar candidatos do grupo durante o governo Biden.

Quando se considera só a América do Sul, o quadro é ainda mais desolador para a esquerda, que agora só controla o Uruguai, o Suriname e a Guiana, além do Brasil. A rigor, com a captura do ditador Nicolás Maduro pelos EUA, nem a Venezuela, hoje sob forte influência de Trump, pode ser incluída na lista, apesar de a vice-presidente, Delcy Rodríguez, alçada ao comando de forma interina, ter desempenhado papel relevante nos governos bolivarianos do país.

Neste cenário hostil, "a pergunta de um milhão de dólares" para o Brasil é: que efeito isso terá para Lula e o PT nas eleições de outubro? Será que Lula conseguirá sobreviver ao tsunami da direita na América Latina e se manter no poder como representante da esquerda? Ou será que ele vai se tornar mais uma vítima da onda conservadora que varre a região?

Reduto esquerdista

Segundo os números da pesquisa mais recente do Datafolha, Lula estaria com a mão na taça, pronto para manter o reduto esquerdista no país, cercado pela direita por todos os lados. Pelo que apontou o levantamento, ele leva ampla vantagem hoje sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal concorrente, no primeiro turno.

A distância entre eles aumentou após as revelações sobre as relações de Flávio com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e sobre suas contribuições milionárias para o filme "Dark Horse", a respeito da trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Está em cerca de dez pontos percentuais (41% a 31% das preferências dos eleitores).

A pesquisa do Datafolha, porém, ainda não captou as recentes denúncias contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, que trouxe o lulopetismo para o centro do escândalo do Master, detonando a narrativa que procurava associar o caso a Flávio, ao clã familiar e ao Centrão.

Além disso, pelas sondagens, Flávio tem se mostrado surpreendentemente resiliente no segundo turno, embora tenha perdido terreno depois das revelações sobre o filme. No entanto, mesmo com o recuo que apresentou, ele se mantém como candidato competitivo, a apenas quatro pontos percentuais de Lula —tem 43% contra 47% do presidente— dentro da margem de erro, de dois pontos para mais ou para menos.

Apesar da vantagem de Lula no momento, não dá para ele e sua turma cantarem vitória antecipada no pleito. Não dá para descartar também a possibilidade de a direita conquistar a "joia da coroa" da América Latina nas urnas. Nas eleições, como no futebol, não faltam exemplos de disputas que derrubaram vencedores de véspera.

A perspectiva de os representantes da direita e da centro-direita —Flávio e os ex-governadores Romeu Zema, de Minas, pré-candidato à Presidência pelo Novo, e Ronaldo Caiado, de Goiás, pré-candidato pelo PSD— se unirem no segundo turno assombra hoje, conforme o noticiário, o Palácio do Planalto. Com cerca de seis a sete pontos percentuais das preferências no total, conforme a pesquisa, as intenções de voto em Zema e Caiado, somadas às de Flávio, podem dar à oposição a maioria do eleitorado, se o "voto útil" no candidato do grupo que passar para o segundo turno se confirmar na prática.

É certo que a ascensão conservadora na América Latina se deve em parte ao apoio da população às suas bandeiras, como a reforma do Estado e a ênfase na luta contra a criminalidade, justamente o ponto mais vulnerável do governo Lula e do PT, no Brasil. Mas, de acordo com cientistas políticos, tem muito mais a ver com o sentimento anti-incumbentes que tem predominado não apenas nas eleições regionais como pelo mundo afora.

De um jeito ou de outro, considerando que Lula é quem está no poder no país, isso só alimenta a percepção de que não há nada garantido nas eleições de outubro e ainda há a possibilidade de o país reforçar o domínio da direita na região, impondo uma derrota histórica para o presidente e para o PT.
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Dinossauro

Em meio às mudanças geopolíticas e à revolução digital que estão em curso, Lula parece um dinossauro, completamente desalinhado com o espírito do tempo. Em seu discurso na reunião do G7, realizada na semana passada na França, ele voltou a insistir nas ideias emboloradas da esquerda, com críticas aos super-ricos e com a defesa da tal "soberania nacional" e do multilateralismo. Reiterou também a defesa do protagonismo de organizações internacionais como a ONU, cuja burocracia é dominada pela esquerda e contagiada pelo sentimento antiocidental e pelo apoio a grupos islâmicos extremistas, como o Hamas e o Hezbollah, bancados pelo Irã.

Lula ainda parece sonhar acordado com a reedição da chamada "onda rosa", que varreu a América Latina no início dos anos 2000, turbinada pelo boom das commodities. Ele revela uma enorme dificuldade em entender que o mundo passou por uma transformação significativa desde então. Não à toa, foi praticamente ignorado no encontro do G7 e escanteado para a ponta esquerda da foto oficial do evento, sendo o único líder presente a levantar o braço na hora dos cliques, na tentativa de atrair a atenção dos fotógrafos.

Ainda que as pesquisas apontem que boa parte dos eleitores endossa as bravatas de Lula contra os EUA, por causa do tarifaço e da classificação das facções brasileiras como grupos terroristas, o contingente que apoia as ações americanas contra o crime organizado é considerável. Representa pouco menos da metade da população, segundo os levantamentos. E, com o andamento da campanha, é inevitável que a narrativa oficial —de que os EUA agora poderão promover até ações militares no Brasil, à revelia do governo— seja confrontada pela oposição e perca sua força.

A julgar pela versão propagada por Lula, pelo PT e por seus satélites, os 12 países latino-americanos com governos de direita e centro-direita que se uniram a Trump no "Escudo das Américas", destinado a combater o narcoterrorismo e a conter a influência da China na região, não passariam de uns sabujos que estão abrindo mão de sua soberania de forma voluntária, o que não faz sentido algum para qualquer pessoa com um mínimo de bom senso. Trata-se, evidentemente, de uma visão contagiada pela ideologia e pela oposição à forma escolhida por Trump e seus aliados para lidar com as duas questões.

A pouco mais de três meses das eleições no Brasil, o que se pode afirmar com segurança é que os presságios regionais para Lula são preocupantes, apesar de ele aparecer na frente de Flávio e dos demais candidatos da direita e da centro-direita nas pesquisas. Pode-se dizer ainda que, embora dada como carta fora do baralho por muitos analistas, a direita e a centro-direita exibem uma vitalidade surpreendente.

Se a direita vencer o pleito e ainda conquistar maioria no Congresso, o Brasil, como maior país da América Latina, vai dar um reforço monumental ao bloco formado por Trump e seus apoiadores na região. Se, ao contrário, Lula for o vencedor, vai governar praticamente isolado, cercado por adversários políticos. Caso isso aconteça, será uma experiência nova para o petista, acostumado a posar de líder regional, a proteger ditadores amigos e a articular os vizinhos de esquerda para formar um bloco antiamericano, antiocidental e anticapitalista, no qual ele pode brilhar sem sombra.

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FONTE: UOL - via Blog do Orlando Tambosi (otambosi.blogspot.com)

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