AVANÇA O BOLSONARISMO SEM BOLSONARO / Por Fernando Castilho

AVANÇA O BOLSONARISMO SEM BOLSONARO / Por Fernando Castilho
09/07/2026


   Passaram-se apenas alguns meses desde a eleição de Lula, e aquilo que eu havia antecipado: o surgimento de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Esse “movimento” começa a se materializar de forma clara. A dinâmica interna da direita brasileira mudou, e vários atores perceberam que a marca “bolsonarismo” continua eleitoralmente valiosa, enquanto a dependência do clã Bolsonaro se tornou um peso estratégico.

  O primeiro a captar essa mudança foi Nikolas Ferreira, que rapidamente percebeu que teria mais a ganhar ao se afastar da tutela familiar. Sua falta de alinhamento automático com o clã resultou em ataques públicos de Eduardo e Flávio Bolsonaro, evidenciando a disputa por protagonismo dentro da própria base.

   A partir daí, outros nomes seguiram o mesmo caminho: Rodrigo Constantino, Cleitinho, Tarcísio de Freitas, Silas Malafaia, e mais recentemente Damares Alves, Valdemar Costa Neto, além de figuras centrais como Rogério Marinho e Michelle Bolsonaro. Cada um, à sua maneira, passou a construir uma identidade própria, preservando o discurso bolsonarista, que continua mobilizando uma parcela expressiva do eleitorado de extrema direita, mas reduzindo a dependência direta da família.

   Esse movimento tem lógica política. Pesquisas recentes mostram que o bolsonarismo, entendido como um conjunto de valores, antipetismo, conservadorismo moral, discurso anticorrupção e retórica antissistema, mantém entre 25% e 30% de apoio consistente no país, mesmo quando o ex-presidente não está no centro da cena. Ou seja, a “filosofia” rende votos, independentemente do líder original.

    Enquanto isso, o clã enfrenta dificuldades crescentes. Bolsonaro, embora não esteja politicamente morto, tende a ser lembrado cada vez menos como figura central, especialmente diante de seus entraves jurídicos. Eduardo Bolsonaro, atualmente foragido e já condenado em processos que o tornaram inelegível, perdeu capacidade de articulação. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem acumulado erros políticos e estratégicos que, na prática, acabam fortalecendo Lula ao fragmentar a oposição.

    Diante desse cenário, torna-se compreensível, e até previsível, o movimento de abandonar o clã sem abandonar o bolsonarismo. Trata-se de uma reorganização natural de forças: manter o capital eleitoral da ideologia, mas substituir o núcleo familiar por novos líderes mais viáveis, menos vulneráveis e com maior capacidade de articulação institucional.

   Em resumo, o bolsonarismo segue vivo, mas o “clã Bolsonaro” já não é mais o único, nem o principal, guardião desse capital político.

FOTO: Imagem criada por IA


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