"A partir do momento em que embarcaram no trem, não sairiam dele até ao final da viagem. As portas estavam seladas", conta o historiador Robert Service em seu livro O Trem Selado.
De acordo com esse plano, o próprio Fritz Platten viajaria no trem e faria a intermediação para evitar que houvesse contato direto entre os exilados russos e interlocutores alemães.
"Lênin insistiu que não houvesse nomes, apenas uma lista de números de passageiros", aponta o professor emérito de história da Rússia na Universidade de Oxford.
Na estação de Gottmadingen, já na Alemanha, houve a mudança de trens. Dois oficiais do exército alemão embarcaram no mesmo vagão que os exilados e se instalaram em um compartimento de terceira classe em uma das extremidades.
De acordo com Service, uma linha branca foi traçada com giz no chão para delimitar o "território alemão" e o "território russo".
"Assim que o trem se moveu da estação de Gottmadingen, os medos se dissiparam e os ânimos se levantaram", diz o historiador britânico.
A escala misteriosa
O "trem selado" avançava pela Alemanha.
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Teria Lênin mudado a estratégia após uma longa parada na Alemanha?
Os homens que viajavam sozinhos instalaram-se em compartimentos de terceira classe. As mulheres e os casais — incluindo Lênin e sua esposa —, na segunda.
"Uma das primeiras dificuldades foi relacionada ao tabaco, que Lênin detestava. Desde o início, ele decidiu que aqueles que queriam fumar deveriam retirar-se", aponta o Service.
Da fronteira sul, o vagão — que mudou várias vezes de via e de locomotiva — entrou na Alemanha em direção a Berlim. Os exilados cruzaram Ulm, Stuttgart, Karlsruhe, Frankfurt... até chegarem à capital alemã, onde o trem parou por horas.
Essa escala misteriosa, observa Service, teve consequências profundas na forma de pensar de Lênin.
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Ele atravessou uma Europa em guerra com a permissão do inimigo da Rússia, que queria convencer os russos a parar de lutar contra a Alemanha
A teoria marxista mais difundida entendia que países economicamente atrasados como a Rússia deveriam passar por um período de capitalismo ao estilo ocidental antes de entrar no socialismo.
Mas na sua chegada a São Petersburgo, o líder bolchevique defendeu uma estratégia revolucionária que omitiu esse passo intermediário.
O que havia depois que não havia antes
"As razões para essa parada são ao mesmo tempo obscuras e tentadoras (...). Houve uma reunião secreta em que Lênin recebeu informações que o fizeram mudar a estratégia da revolução?", pergunta Service.
"Embora os eventos daquela noite em Berlim só possam ser objeto de especulação, não há dúvida de que, durante a viagem de Berlim a São Petersburgo, Lênin alterou completamente seu plano tático (...)".
"Nenhum historiador — soviético ou ocidental — foi capaz de dar uma explicação adequada sobre isso até hoje", destaca o especialista em história russa.
Mas Service aponta uma hipótese:
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Cartaz de propaganda soviética da década de 1920: "Todo o poder aos soviéticos! Paz ao povo! Fábricas e moinhos aos trabalhadores!" Lênin empunhando o jornal Pravda... financiado pela Alemanha?
"Depois da viagem pela Alemanha no trem selado, surgiu um fator que não existia quando Lênin estava na Suíça: uma grande quantidade de financiamento alemão, suficiente para publicar jornais em toda a Rússia e difundir propaganda em uma escala que Lênin nunca antes poderia conceber".
As autoridades soviéticas e historiadores comunistas sempre negaram a existência desses fundos alemães.
Bem-vindo a Estocolmo
Seja como for, após a escala em Berlim, Lênin e seus companheiros continuaram a viagem e, em 12 de abril, chegaram a Sassnitz, na costa báltica, onde embarcaram no ferry sueco "Rainha Vitória", com destino a Trelleborg.
De lá continuaram, novamente de trem, até Malmo e depois, num trem noturno, até Estocolmo.
Na capital sueca, Lênin foi recebido quase como uma estrela. Reuniu-se com socialistas locais e com outros exilados.
No dia seguinte, uma multidão de jornalistas e curiosos despediram-se dele na estação, de onde partiu para Haparanda, 600km ao norte.









