FLORES - João Batista de Brito

FLORES - João Batista de Brito
05/07/2024

Caros amigos, segue mais um texto a constar, ou não, do meu novo livro. Por favor, releia e responda com SIM, se ele entra no livro, ou com NÃO, se ele sai. Sempre grato.

João Batista de Brito (Facebook)

FLORES

Assim me chegou a história:

Sou recifense da gema, nascido no velho bairro de Santo Amaro. Eu era criança nos anos trinta, quando o bairro ainda era pacato e habitável. Meu pai tinha um açougue modesto, com o qual sustentava a família – e éramos sete ao todo. Estudávamos em escolas do município, e nosso divertimento consistia quase só nas brincadeiras de rua, tão comuns na época. Fora disso, só um cineminha, quando a grana dava.

Era assim no bairro inteiro, onde todos, cada um com seu infortúnio, se pareciam com a gente, até as casas se pareciam.

Havia, porém, na nossa rua, uma casa mais distinta: um chalé com jardim, coisa rara por ali. Os residentes, um jovem casal gaúcho, eram distintos como a casa: ambos louros, de pele rosada, olhos azuis, gestos elegantes e um sotaque charmoso que nos encantava a todos. Até os nomes eram diferentes: Gunter e Hanelore, sem falar no sobrenome de origem alemã, deliciosamente impronunciável.

Hanelore era apenas dona de casa, mas Gunter viera para trabalhar na Great Western, a Companhia inglesa de estradas de ferro, que a gente chamava de Gretueste.

Eu os admirava, mas não estava sozinho nisso. Acho que o bairro todo queria ter a beleza, o charme e a fineza daquele casal.

O gesto mais admirado era aquele das sextas-feiras, dia em que – depois de uma semana de trabalho – Gunter voltava pra casa com um buquê de flores para a esposa, que o aguardava no jardim e o recebia com um sorriso e um beijo – como se a prenda fosse surpresa. Ah, ele com seu suspensório sobre a camisa branca, tirando o chapéu caro para o gesto, ela com seu belo vestido estampado esvoaçante, os dois se abraçando e entrando em casa de mãos dadas... Aquilo, para mim, era cena de cinema, daqueles filmes românticos que Hollywood tão bem sabia fazer.

A vida particular do casal gaúcho ninguém conhecia, mas vontade não faltava. Nas esquinas, na praça, nas cozinhas, e, principalmente nas calçadas, onde, após a janta, o bairro descansava dos trabalhos diurnos - tudo que eles faziam ou deixavam de fazer era comentado, com admiração, mas também com uma pitadinha de inveja. Sem dúvida, o casal gaúcho havia se tornado, para todos nós, um símbolo de alguma coisa maravilhosa, não se sabia bem o que, talvez o símbolo do casamento perfeito.

Não conto as vezes em que ouvi minhas irmãs mais velhas e suas amigas dizerem que só se casariam com homens que lhes trouxessem flores. Outras, mais exigentes, ainda cobravam olhos azuis e sotaques sulistas.

De minha parte, confesso, eu lamentava que meu pai não trouxesse flores para minha mãe. Tentava até imaginar a cena, mas nunca dava certo, nem na imaginação. Baixote, entroncado, careca, sempre suado e, pior, fedendo às carnes com que lidava no açougue, decididamente a figura de meu pai não combinava com a ideia de flores, e acho que a de minha mãe tampouco, coitada, vencida pela labuta doméstica, meio gorducha, meio corcunda e meio grisalha, aparentando uns dez anos acima da idade que tinha.

Enfim, por contrastes assim, ou não, prosseguia a admiração por aquele casal gaúcho tão especial, tão perfeito e - embora ninguém no bairro pudesse dizer que desfrutava de sua amizade - tão querido.

Houve, porém, um dia em que o nosso deslumbramento com o casal sofreu um baque. Foi numa tarde quente de sábado, quando os vizinhos mais próximos do casal começaram a ouvir umas vozes na casa, como se uma discussão estivesse rolando. Acostumados com o silêncio e a paz reinante, ficaram curiosos e atentos. Logo as vozes foram ficando mais altas e mais ferinas, até que se ouviu o barulho de pancadas, móveis caindo, objetos sendo jogados com extrema violência, e ao meio disso tudo, gritos, gemidos e o que pareceu ser um pedido de socorro.

Sem mais delongas, os vizinhos correram pra lá, dispostos a arrombar a porta e entrar. Nem foi preciso porque Gunter já ia saindo, desfigurado pelo ódio, correndo para a rua feito um louco, ninguém sabe com que destino. Hanelore foi encontrada quase desfalecida, sem fôlego, o corpo marcado de escoriações, o nariz sangrando, e o pescoço com manchas de uma tentativa de estrangulamento. Por sorte, o carro de praça de Seu Hipólito estava por perto e a vítima foi levada para o hospital do Derby, onde foi internada.

Alguns dias depois do ocorrido, tarde da noite, algum vizinho insone ouviu o barulho de uma mudança sendo feita, móveis sendo jogados às pressas num caminhão... E foi tudo. E ninguém mais no meu bairro teve notícia do casal.

Só sei dizer que, na noite do dia em que a tragédia ocorreu, fui dormir perturbado, e, na inocência dos meus dez anos de idade, rezei e agradeci a Deus por meu pai não trazer flores para minha mãe.


FONTE: Facebook

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