A mão e o fantoche
A quem, afinal, Donald Trump representa quando fala em nome da América?
Claro que não se trata de uma pergunta retórica, embora ele a trate como tal. Ele não fala para todos, assim como não governa para todos. Trump representa uma coalizão específica, barulhenta e ressentida, que se sente deslocada por um mundo que mudou rápido demais e sem pedir autorização. Representa setores do grande capital financeiro e imobiliário, as indústrias fósseis, o complexo armamentista, magnatas da tecnologia quando lhes convém, e líderes religiosos que transformaram a fé em instrumento político.
Obedece menos às instituições do Estado e mais à lógica do mercado que o formou, onde vencer é eliminar o outro, não negociar.
Trump também obedece ao próprio espelho. Sua fidelidade primeira é ao personagem que construiu, uma mistura de empresário de sucesso, outsider da política e justiceiro contra inimigos difusos. Congresso, cortes, organismos internacionais e tratados são tolerados apenas enquanto não atrapalham essa narrativa. Quando atrapalham, viram obstáculos a serem deslegitimados. O direito internacional vira detalhe. A diplomacia, fraqueza. O multilateralismo, uma armadilha.
Mas quem se sente representado por ele?
Votam em Trump milhões de trabalhadores precarizados que foram abandonados pelo velho pacto social americano e aprenderam a odiar o mensageiro errado. Votam nele pequenos empresários esmagados por crises que não criaram. Votam nele cidadãos brancos empobrecidos que confundem perda de privilégios com perseguição. Votam nele setores médios amedrontados pela diversidade, pela imigração, pela mudança de costumes, pela simples ideia de dividir o espaço público com quem sempre esteve do lado de fora.
Votam nele também os que lucram com o caos. Milícias ideológicas, produtores de desinformação, líderes autoritários mundo afora que veem em Trump um salvo-conduto moral. Se o presidente dos Estados Unidos pode desacreditar eleições, insultar a imprensa e ameaçar adversários, por que eles não poderiam?
Trump não cria esses sentimentos, mas os organiza. Ele dá voz ao ressentimento, dá palco à intolerância e dá verniz político à brutalidade. Em troca, recebe lealdade quase religiosa. Não importa o que diga, o que faça ou o que viole. A representação deixa de ser programática e vira identitária. Vota-se nele não pelo que propõe, mas pelo que afronta.
E é aí que a pergunta inicial ganha contornos mais nítidos. Trump representa quem se sente em guerra permanente contra o presente. Obedece a interesses que prosperam quando o conflito substitui o diálogo. E é votado por quem prefere a promessa de um passado idealizado à complexidade do mundo real.
A democracia, nesse cenário, vira apenas um instrumento. Serve enquanto garante vitória. Quando ameaça derrota, passa a ser tratada como inimiga. E isso diz menos sobre Trump como indivíduo e mais sobre a sociedade que o produz, o sustenta e o aplaude.
A questão mais incômoda não é a quem Trump representa, mas quantos ainda aceitam ser representados por ele, mesmo sabendo exatamente o que ele é.
Aloísio Lobo/Jornalista
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