Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

A PEREGRINAÇÃO PATROCINADA: O MÁRTIR DE ORÇAMENTO APROVADO

Por: | 24/01/2026

A Peregrinação Patrocinada: O Mártir de Orçamento Aprovado

 Há uma obscenidade quase perfeita nessa procissão cívica. Não está no suor que escorre para as câmeras, nem na face lavada de mártir precoce. O verdadeiro escândalo caminha alguns passos atrás, fardado e pago por você: a segurança institucional que transforma protesto em passeio, rebeldia em função pública, e indignação em rubrica orçamentária.

 Enquanto encena perseguição, o deputado desfila com escolta da Casa que diz combater. O teatro é gratuito para ele; a plateia paga ingresso involuntário. Denuncia opressão enquanto desfruta de proteção estatal completa: viaturas, combustível, diárias, servidores em missão tudo debitado na conta do mesmo povo que ele insulta quando este ousa pensar diferente.

 Eis a síntese do paradoxo bolsonarista no poder: o revolucionário de crachá, o insurgente com viatura oficial, o profeta que entrega suas profecias via sistema de diárias. A "marcha pela liberdade" tornou-se exercício controlado, coreografado com dinheiro público, vigiado por aqueles que deveriam representar a ordem que ele próprio diz desafiar.

 A ironia final amarga, previsível é que os arautos do Estado mínimo, os cruzados contra privilégios, os fiscais da "mamata alheia", agora consideram natural converter a polícia legislativa em equipe de apoio para espetáculo pessoal. Não protegem a instituição; custeiam um personagem. Não garantem a democracia; financiam um roteiro.

 O movimento que nascia contra Brasília hoje só respira através de seus dutos. Que só existe sugando seus recursos. Que marcha contra o sistema com o cartão corporativo do sistema no bolso. Chamam de sacrifício o que é, na verdade, a mais cristalina expressão do privilégio: a rebeldia como benefício, a crítica como cargo, a revolta como despesa autorizada.

 Quando a cortina cair, quando as luzes do circo se apagarem e restar apenas a conta sempre resta a conta veremos o que realmente financiamos: não um ato de fé, mas um cálculo político; não um mártir, mas um gestor de sua própria mitologia; não um profeta, mas um contador de custos disfarçado de pregador.

 Se isto é perseguição, que Deus nos livre do dia em que o privilégio findar. Pois aí sim conheceremos o verdadeiro deserto: aquele onde não há viaturas, nem diárias, nem holofotes pagos com o suor alheio. Apenas o silêncio e o eco vazio de discursos que nunca precisaram ser verdadeiros, porque sempre foram patrocinados.

Alessandra Del’Agnese 

(Cronista,poeta e ensaísta)


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