Archidy Picado Filho
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Washington Rocha: de Marx a Jesus

Por: | 30/01/2026


Quando conheci o professor-mestre em Filosofia Washington Rocha eu era ainda pré-adolescente curioso, atento aos amigos de meu pai que, eventualmente, chegavam de todas as partes da cidade e do planeta trazendo consigo experiências, preconceitos e conceitos variados sobre si e sobre as realidades onde viviam.


Como eles, Washington, ainda não munido da experiência de vida (e de morte) que tem hoje, costumava ir a nossa casa pra conversar com meu pai. Suas conversas, girando também em torno de assuntos ligados ao desenvolvimento da sensibilidade humana (tanto quanto às investigações das “razões” da insistente desumanidade), apresentavam-me Washington então preferencialmente devoto da filosofia materialista de Karl Marx e, em consequência, naturalmente inclinado à desconsideração de argumentos que tentam explicar a origem do mundo e dos seres fundamentados na perspectiva espiritualista.


Como a maioria, primariamente educado sob princípios deístas cristãos, na época espantava-me como alguém podia imaginar um mundo sem um deus que, segundo o primeiro livro da Bíblia, nos parece ter emprestado partes de si à feitura do Universo pra reger perpetua e essencialmente os seus movimentos, ao mesmo tempo estabelecendo-se enquanto “O Sentido”, meta primeira e última da existência de tudo e dos que, não sem esforço, se tornariam humanos.


Até onde pude observar, nas conversas entre Washington e meu pai – que, inclinado às considerações metafísicas, mantinha certa reserva na aceitação dos conceitos defendidos pelo materialismo histórico marxista para a explicação do(s) sentido(s) oculto(s) da Vida – como todo bom materialista comunista daquela época, e de todos os tempos, em sua jovialidade entusiasta, Washington jamais me pareceu capaz de mudar radicalmente sua perspectiva, consequentemente pondo em dúvida “certezas” materialistas de outrora. Porque, munido das convicções de Marx, defendia peremptoriamente sua repulsa à experimentação influente dos efeitos do “ópio do povo” em seu juízo, considerando a presença do cosmos, como o ateu que parecia ser, nada mais que “obra do acaso”, sendo o fundamento das insatisfatórias relações “humanas”, submetidas à participação numa existência essencialmente “sem sentido”, basicamente obra de uma cultura que providencia a má distribuição da riqueza material, acumulada pelos que, também materialistas, foram e, ao que parece, continuam incapazes de enxergar outro sentido pra suas vidas a não ser o desenvolvimento de métodos à exploração impiedosa da força de trabalho de seus “semelhantes”. Inconscientes de que, no fundo, como advertem as palavras de Jesus, desenvolvem formas à obtenção de grandes quantidades de comida para traças, ferrugem e vermes, além de promoverem violentos movimentos de revolta.


Mas, quando inclinados aos materialismos capitalistas ou comunistas – tendo os simpáticos ao Comunismo, é bom dizer, demonstrado maior interesse pelas tentativas de superação das aflições humanas (mesmo que saibamos da histórica ineficácia e violência de seus métodos) – a maioria dos jovens são como foi Washington: munidos de toda energia de que biologicamente lhes dotou a Vida, pensam-se autossuficientes em força, determinação e beleza, ao mesmo tempo em que lutam compulsoriamente por um sonho irrealizável: a “plena independência”. Porque, com prepotência, não se percebem absolutamente dependentes de muitas coisas que, como a eles, sustentam temporariamente as mais de oitocentos milhões de formas da Vida que compartilham e revezam a existência neste planetinha perdido na imensidão do Universo: todos os alimentos que vêm da terra, da água, do fogo e do ar, sendo o ar elemento fundamental à promoção de vidas. Enquanto considerado “divino sopro”, metafórica expressão da existência invisível daquilo que, essencialmente sensível, nos determina enquanto vivos e mortos.


Em todos os tempos e culturas está claro que é somente quando temos pelo menos uma experiência com a morte, movimento final sístole (ou diástole?) das manifestações pulsantes da Vida, que então vemos quão efêmeros são os nossos e os corpos de tudo, tanto quanto os circunstanciais sonhos de ser. E então é quando tendemos a nos apegar à eterna força vital sem nome a qual, como assombrados selvagens contemporâneos, atribuímos status de “Espírito-Deus-todo-poderoso” que, em sucessivas gerações, onipresente enquanto nós, tudo experimenta, sente, vê, ouve, sabe.


“Naqueles dias, em que esperava bastante corajosamente a morte”, escreveu o falecido judeu Primo Levi em seu livro A Tabela Periódica, sobre momentos de sua estada num campo de concentração nazista nos idos de 1944, “abrigava uma vontade lancinante de tudo, de todas as experiências humanas imagináveis, mal dizia minha vida precedente, que me parecia ter desfrutado pouco e mal, e sentia o tempo fruir entre os dedos, escapar do corpo minuto a minuto, como uma hemorragia não mais estancável”.


É assim que sentem alguns quando em contato íntimo com a morte, ou com sua iminência, enquanto outros se apegam à esperança de que, depois do derradeiro suspiro e do definitivo verme que arrotar a comilança de seus últimos restos mortais, pelo milagroso e infinito poder de um Criador eles não apenas acreditam que terão de volta as personas que, no espaço-tempo de uma única vida, lhes deram sentidos, mas também que poderão reencontrar, quer em sucessivas reencarnações, quer numa única prometida ressurreição, entes queridos numa paradisíaca existência pós-morte – uma vez que, considerando a potência do que creem ser a manifestação de um “Amor infinito”, e seus incondicionais perdões, no fim a maioria de nós deverá estar isenta de participações num inferno póstumo eterno, sendo-nos preferível o extermínio absoluto.


Para a mudança de perspectiva do Washington marxista ao deísta cristão fervoroso certamente contribuíram, infelizmente, inesperadas investidas da morte. Quando acontece naturalmente, não enquanto instrumento de assassinos, ela se apresenta absolutamente isenta de julgamentos morais ou paixões a lhe fazer levar muitos dos nossos queridos e uma quantidade assustadoramente significativa de outras vidas desconhecidas que, em vários momentos da História, quer enquanto estrelas e reis, princesas, páreas ou baratas, sentiram o prazer e as dores de estar vivos na Terra desde sua fundação. Ou, como também creem possível muitos, em outras das muitas moradas do “Profundíssimo-Altíssimo”, nas entranhas de seu maravilhoso organismo celestial.


Como ex-comunista, sensível e inteligente que é, para expressar angústias, dúvidas e, principalmente, esperanças, Washington Rocha escreveu o livro Razões do Coração Cristão: Carta a Eliete em memória de Eliane Monte da Rocha, um ensaio místico-filosófico sobre o sentido da Vida de tudo (e, mais particularmente, da sua vida e dos que ele ama), onde explica sua mudança de paradigma e submissão à necessidade de sua fé, mesmo cega, no controverso universo de valores cristãos – e suas promessas de vida eterna individual – na forma de uma carta que escreveu à cunhada.


Para o jornalista e filósofo Iremar Bronzeado, que assina a primeira apresentação da Carta, “Washington se desnuda e expõe sem nenhuma reserva as feridas e as glórias de sua alma, aproveitando esse exercício catártico para defrontar com coragem indômita o desafio de encontrar, como fez Agostinho em seu famoso e apreciado livro Confissões, uma Verdade que preencha não somente sua razão e sua mente, mas que pacifique e justifique seu coração. Uma Verdade que lhe dê conta dos mistérios da morte, da existência, da finalidade da vida e da história humana; do bem, do mal, dos deuses, de Deus. Uma Verdade que transcenda todas as Verdades particulares para ser verdadeiramente A Verdade, único refúgio para o repouso e a tranquilidade completa da alma, sem o que não se atinge a plena felicidade”.


Em palestra recentemente proferida, no entanto, Washington se declara incapaz de aceitar a Verdade se, ao contrário do que prometeu Jesus, ela não for ao encontro de suas expectativas e esperanças de viver para sempre em companhia dos seus. Para ele, por exemplo, no momento menos filósofo do que cristão esperançoso, não interessa se, como preveem os budistas, a finalidade de nossas vidas seja a percepção de que apenas saímos da Roda da Vida (deste ciclo de encarnações, necessárias à conquista do Nirvana, ou iluminação) na consciência de que, como nos sugere uma das metáforas de Buda, somos como gotas de chuva que despencam das nuvens rumo ao mar à plena integração de suas efêmeras individualidades no oceano.


Para o filósofo-cristão Washington Rocha, portanto, abaixo a Razão e sua prepotente tentativa de explicar “Deus”, sua “inequívoca onisciência” e suas inquietantes vontades, já que também sequer pode a Razão fazê-lo conseguir argumentos razoáveis para explicações sobre o sentido de sua própria vida, de seus queridos e queridas ou de seu declarado egoísmo, notadamente anticristão:


“Sinto em ti, minha cara Eliete” – escreveu ele em sua Carta – “uma alma feita para essas Verdades superiores. A generosidade é marca dessas almas. Não é o meu caso; sou visceralmente egoísta”.


Para suportar sua vida na corda bamba entre “o Ser” e o nada, como uma multidão de outros, ele recorre à fé na promessa jesuíta da ressurreição de sua carne e de seu pequenino ser pós-histórico.


Quanto a mim, já que a Vida também nos dotou de potencial reflexivo, prefiro me esforçar para compreender o que é e onde está o que chamamos “Deus”; quando e onde eficazmente atua; por que, do alto de sua potente onisciência, parece não se importar com as misérias promovidas pela ignorância de seus filhos e filhas.


Em minhas vivências e leituras, creio ter descoberto quando e onde “Deus” existe e quando e onde não existe. Em consequência, quando e onde o eu existe e quando e onde eu não existo, além do fato de que semelhanças com “Ele” se evidenciam quando exercitamos nosso poder de “criadores” ou inventores, sendo a sensibilidade, a memória e a imaginação as forças básicas responsáveis pelo desenvolvimento de culturas, intervenções ao esforço de nos tornar seres melhores na passagem pela Vida que, sem dúvida, estende-se ad eterna entre os tempos de umas e outras de suas (quase) infinitas manifestações.


17/04/2010


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