Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

A SÍNDROME DO DISCÍPULO


Por: | 16/02/2026


    O sujeito moderno é um animal curioso. Mora em um apartamento de 60 metros quadrados, mas carrega dentro de si um vazio do tamanho do deserto do Saara. Tem 500 amigos no Facebook, 800 seguidores no Instagram, e acorda todas as manhãs com a angústia de quem está perdido em uma ilha deserta. Por isso, quando aparece um anúncio como esse uma imersão com o apóstolo João na ilha de Patmos, ele sente um frio na espinha. Não é fé, não é exatamente esperança. É o reconhecimento de uma fome ancestral.

Precisamos de um guru. Sempre precisamos.

  O cérebro humano, essa máquina extraordinária de 86 bilhões de neurônios, não consegue suportar a ideia de que está sozinho no universo. Criamos deuses, mestres, líderes espirituais, coaches quânticos, influenciadores digitais de autoajuda tudo para que alguém, de preferência com barba e olhar profundo, nos diga o que fazer. O guru é o espelho que devolve uma imagem mais organizada de nós mesmos. Ele vê sentido no nosso caos.

  O texto do convite é um poema em prosa: "O Evangelho de João não como texto religioso a ser explicado, mas como mapa interior a ser vivido". Isso é cirúrgico. A alma contemporânea está farta de explicações. Explicações são o que os especialistas dão. Explicações são o que enchem as prateleiras das livrarias de autoajuda e os timelines dos filósofos de buteco digital. Mas ninguém quer mais explicações. Queremos experiência direta. Queremos sentir o cheiro do mar de Patmos. Queremos entrar na caverna e encontrar, não uma estátua, mas o arrepio do mistério.

  João, o teólogo, o místico, o discípulo amado, começa seu evangelho com uma declaração de tirar o fôlego: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus". Não é um começo, é um abismo. O Logos que se faz carne é a maior metáfora da condição humana: somos espírito tentando ser matéria, somos eternidade tentando caber no tempo. E é exatamente essa cisão que nos faz procurar gurus.

Queremos alguém que junte as partes.

  Herculano Pires, o grande estudioso da fenomenologia espírita, dizia que o homem é um ser em transição, uma ponte entre a matéria e o espírito. E pontes balançam. Por isso buscamos pilares. Mas cuidado: o verdadeiro guru não é aquele que dá respostas, mas aquele que ensina a fazer as perguntas certas. Como Cristo, que raramente respondia diretamente. Ele perguntava: "Quem dizeis que eu sou?" Devolvia o mistério ao interlocutor.

   Essa imersão proposta não é um retiro para encontrar um líder, mas para encontrar-se com João e, através dele, com o Cristo interior. "Afastar-se um pouco do ruído do mundo, ir à ilha com João, entrar na caverna do símbolo". É um convite ao silêncio. E o silêncio, meus amigos, é o único guru que não cobra hora extra.

   Porque, no fundo, todo guru verdadeiro trabalha para se tornar desnecessário. Ele te leva até a porta e diz: "De agora em diante, você abre". O problema é que queremos gurus que abram a porta para nós. Melhor ainda: que entrem primeiro, acendam a luz, afastem os móveis e ainda façam café.

  Mas não é assim. A ilha de Patmos não é um destino turístico. É um estado de espírito. É a solidão necessária para ouvir o que o barulho do mundo abafou. E João, o velho apóstolo exilado, não está lá para ser seu professor, mas para ser seu companheiro de solidão. Dois homens, cada um na sua caverna, olhando o mesmo mar.

   O anúncio termina com uma frase que poderia ser assinada por Jung, por Herculano ou pelo próprio Cristo: "Se você sente que a espiritualidade precisa voltar a ter profundidade, se intui que o Evangelho ainda tem algo vivo a dizer, se percebe que conhecimento sem transformação já não basta, talvez este chamado seja para você".

   É isso. O conhecimento incha, mas a transformação liberta. Paulo já dizia isso aos Coríntios, séculos atrás. Sabemos muitas coisas. Temos informação sobre tudo. Mas continuamos vazios. Porque informação não preenche alma. Preenche currículo.

  A imagem de Cristo, nesse contexto, não é a do homem sofredor da via crucis, nem a do juiz do apocalipse. É a imagem do Logos, do Verbo que cria, do mistério que se faz carne em cada um de nós. Cristo não é um guru externo. É a possibilidade interna de cada um tornar-se aquilo que é: filho de Deus, centelha do infinito, viajante em direção à luz.

Mas para isso, é preciso coragem. Coragem de ir para a ilha. Coragem de enfrentar a caverna. Coragem de ouvir o silêncio.

 Os gurus de plantão continuarão lotando estádios, vendendo cursos de 12x sem juros, prometendo felicidade em 30 dias. E sempre haverá discípulos para eles. Porque é mais fácil seguir alguém do que seguir a si mesmo. É mais confortável ter um mapa do que explorar o território.

  Mas o verdadeiro chamado esse que vem de João, esse que vem de dentro não promete conforto. Promete profundidade. Não promete respostas. Promete perguntas. Não promete um guru. Promete um encontro.

   O encontro com o Verbo que, desde o princípio, espera pacientemente que a gente pare de correr atrás de mestres e comece, finalmente, a ouvir.

Patmos nos espera. A caverna está aberta. O mistério não tem pressa.

   Mas cuidado: ao voltar de lá, você pode descobrir que o guru que procurava era você mesmo o tempo todo. E aí, meu amigo, não há mais volta. Porque quando a gente descobre que o mestre mora dentro, o mundo vira escola e cada dia é uma revelação.

E não há curso no mundo que ensine isso.




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