O MAL QUE POESIA FAZ
João Batista de Brito
Lembro a primeira vez que aconteceu.
Estávamos num churrasco com amigos e meu esposo foi justificar a ausência de nossa filha, Renata, ocupada com um trabalho de faculdade. Gaguejou, confuso, e, ao invés de dizer o nome, disse que “ela” não podia vir. Quando alguém perguntou quem era ela, notei seu embaraço, e o acudi com a resposta. Estranhei que meu esposo pudesse esquecer o nome de nossa filha, mas ri e não me preocupei.
As preocupações viriam em seguida.
Depois daquela ocasião, o esquecimento de nomes passou a se repetir, cada vez mais, até tornar-se quase sistemático. Só faltava esquecer o meu. Até que um dia esqueceu. Chamou-se pelo nome de uma tia sua, Naninha, e em seguida corrigiu. Chorei escondida, mas me refiz.
E o esquecimento não ficou só em nomes.
Mais grave foi no dia em que, no volante, vindo do centro para a orla, ele tomou outro rumo, e daí a pouco estávamos perdidos no trânsito. Notei que, inconscientemente, entrara numa rua que conduzia à Torre, o bairro em que nascera e em que passara sua infância – um bairro que não visitávamos havia muito tempo, pois seus pais já não existiam, e os irmãos mãos não moravam mais ali. Depois disso, achei prudente assumir o volante.
Nomes, lugares, coisas, fatos... esquecidos ou confundidos. A situação foi se agravando e, daí a pouco, passamos a viver de consultório em consultório. E melhora nenhuma. Os diagnósticos variavam de médico para médico, mas os sintomas eram os mesmos, cada vez mais progressivos. Fisicamente, meu esposo parecia normal, mas sua identidade, - ou devo dizer sua alma? - como que se evaporava.
De repente, sem mais nem menos, deu em ficar agressivo, ele que sempre fora admirado pela sua postura de cavalheiro. E uma agressão indistinta, que se estendia a todos, até aos netos. Com paciência, fui me habituando à situação como pude. Os parentes me aconselhavam contratar enfermeira, mas preferi não. Como ele, eu estava aposentada, e queria dedicar o resto da vida a meu esposo amado.
Pois uma certa noite quente de insônia, estávamos eu e ele a sós no terraço do apartamento, apreciando um resto de lua que se mostrava por entre os prédios vizinhos. De repente, notei meu esposo inquieto, me fitando, angustiado, como se quisesse dizer algo, sem conseguir. Cheguei mais perto, e aí, ele, trêmulo, os olhos marejando, me abraçou com a força que ainda tinha, se agarrando ao meu corpo, como se tentando desesperadamente salvar-se de um perigo extremo. Sim, era claramente um doloroso pedido de socorro. Contive o choro e abracei-o, e ficamos assim, entrelaçados, por não sei quanto tempo.
Foi quando atacou-me aquele poema da Dyrce Araújo, um dos muitos constantes do meu caderno privado de poemas selecionados. E meu sofrimento multiplicou-se.
Com o título de “Náufragos”, o poema lê assim:
Na profunda noite
Teu abraço de afogado
Me deixa a certeza:
Nunca mais
Iremos à tona.
Como era possível um poema escrito por uma desconhecida, conceituar, com tamanha crueldade, o nosso trágico fadário?
Ah, o mal que poesia pode fazer!
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