João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

MÚSICA DE CINEMA (para Nelson Barros)

Por: | 06/03/2026

MÚSICA DE CINEMA (para Nelson Barros)

João Batista de Brito


Admitamos: o Youtube até que tem suas utilidades. Seja em que área de conhecimento for, ele sempre tem algo a oferecer. Às vezes sofrível, às vezes bom, às vezes muito bom. Nele sou assíduo nos itens literatura e cinema, mas, um acesso meu praticamente diário é na área musical.

É que faço ginástica caseira diariamente e sempre o faço ao som de música. Enquanto me movimento, escuto música e o canal que procuro é sempre o mesmo, com trilhas sonoras de filmes.

O canal – ou seja lá como se chame - recobre toda a década de sessenta, com filmes a que assisti nas telas dos cinemas de João Pessoa, e o percurso, em ordem cronológica, me permite revisitar, a década inteira, ano por ano, me fazendo reviver velhas emoções da minha confusa e inquieta juventude. Enquanto toca a trilha, se mostram imagens com cenas dos filmes. Saudosismo besta, mas tudo bem.

Vamos lá. Embora siga a cronologia dos filmes, aqui não cito as datas, já que, naquela época, filmes e músicas não nos chegavam nas mesmas datas, aqueles sempre atrasados, às vezes de anos.

O primeiro na lista do canal é “Amores clandestinos” (Música: “A Summer place”) o primeiro filme impróprio a que assisti, então com treze anos de idade. Lá estão as caras ingênuas de Sandra Dee e Troy Donahue, jovens namorados, filhos de pais problemáticos. É só um melodrama dirigido por um cineasta mediano, o Delmer Daves, mas causou reboliço na província pela temática do adultério escancarado, hoje coisa banal.

O segundo da lista é “Quando setembro vier”, comédia romântica com Rock Hudson e Gina Lollobrigida, que, com muita propaganda, inaugurou o novo cinema Plaza em 1963. Melhor que o filme, foi desfrutar desse novo luxo, o ar condicionado da sala, coisa impensável até então. De todo jeito, a música “Come September” pegou e foi muito ouvida.

O terceiro também foi um grande sucesso: “Bonequinha de luxo”. Quem pode esquecer Audrey Hepburn cantando o suave “Moon river” de Henry Mancini, com letra de Johnny Mercer? De minha parte, lembro a minha então professora de inglês, nos ensinando a letra da canção, emperrada na expressão “Huckleberry friend”, simplesmente por não ter lido Mark Twain.

O seguinte, “Vicio maldito”, já foi um filme adulto e meio depressivo sobre o alcoolismo, onde Jack Lemmon e Lee Remick fazem esse casal de viciados sem perspectiva de recuperação. O tema só é suavizado pela trilha, “Days of wine and roses”, canção belíssima sobre os dias de vinho e rosas que antecedem a decadência, inspirada em um verso do poeta inglês Ernest Dowson.

E aí veio a superprodução de David Lean, “Dr Jivago”, adaptando o romance de Boris Pasternak, sobre a revolução russa que geraria a URSS. No elenco Omar Shariff e Julie Christie, tudo bordado pela encantadora trilha de Maurice Jarre, popularizada como o “Tema de Lara”.

Mais música, e agora com dança em “A noviça rebelde”, filmagem do sucesso da Broadway, que os meus amigos comunistas chamavam de ‘a nociva rebelde’ e me deixavam, a mim que amei o filme, em dúvidas sobre minhas convicções ideológicas. As canções são realmente inesquecíveis. No canal que escuto, a escolhida é a principal, “The sound of music”, que dá título ao filme.

Com sua trilha melancólica, “Adeus às ilusões” já deixava transparecer a decadência da Hollywood clássica que havíamos conhecido nos velhos tempos. Sim, o casal Elizabeth Taylor e Richard Burton soavam mofados, na vida real e no filme. Tudo muito déja vu para um cinéfilo como eu, mas a canção, “The shadow of your smile” prevalece até hoje.

O “Romeu e Julieta” de Zeffirelli tomou conta das salas, versão shakespeariana melhor e mais ousada que as anteriores, consagrando a trilha de Nino Rotta como uma das mais tocadas da época. Com acréscimo da letra, em sua voz meio metálica, Johnny Mathis a gravaria como “A time for us”, lembram?

Dando o adeus definitivo ao cinema de final feliz, o drama mundano do inglês americanizado John Shlessinger, nos apresentou essa dupla triste (Dustin Hoffman e Jon Voight) tentando, sem sucesso, sobreviver no submundo americano. “Everybody is talking” é a trilha mais lembrada, mas o meu canal preferiu o tema central do filme, a triste composição de John Barry, que não tem letra.

Sem esquecer as composições de Ennio Morricone para os faroestes italianos de Sérgio Leone. As de “Três homens em conflito” (The good, the bad and the ugly) e “Era uma vez no Oeste” (Once upon a time in the West) são simplesmente arrebatadoras.

Esticando um pouco as datas, o canal fecha com a trilha inesquecível de Michel Legrand, que alguns consideram até melhor que o filme, embora “Era uma vez um verão”, se saia muito bem ao contar a história de um amor desencantado entre uma jovem feita viúva pela guerra e um adolescente abismado. Eu disse inesquecível? “Summer of 42” é mais que isso.


FONTE: Facebook - Acesse

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