Alessandra Del`Agnese
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CARTA A UM HOMEM QUE NÃO CONHECI


Por: | 07/03/2026

Antonio Lobo Antunes – 1 set. de 1942 / 5 de mar. de 2026

A vida tem dessas ironias, meu caro Antunes. Eu aqui, nesta mesa de escritório em João Pessoa, com a minha máquina de escrever e o meu chá, escrevendo sobre um homem que nunca conheci. E por que raios estou eu a escrever sobre ti? Porque tu me habitas. Porque tu és um daqueles fantasmas necessários, daqueles que a gente escolhe para ter por perto, mesmo sem nunca ter apertado a mão.

Não nos conhecemos, Lobo. Não trocamos um aperto de mão suado num aeroporto qualquer, não partilhamos uma mesa de taberna com pastéis de nata e vinho verde. Mas eu li-te. E quando a gente lê um homem como tu, a gente não está apenas a passar os olhos por palavras ordenadas em páginas. A gente está a escutar os teus silêncios, a ver a luz de Lisboa a entrar pelas tuas janelas, a sentir o cheiro a hospital e a livros velhos que deve pairar na tua casa.

Ler-te foi como descobrir que a dor pode ser bela. Que a morte pode ser contada com a delicadeza de quem fala do nevoeiro no Tejo. Tu pegaste no escombro da existência nas camisas por abotoar, nos corpos que se amaram e se perderam, nos mortos que te visitam todas as noites e fizeste disso música. Uma música estranha, sim, com frases que se enrolam como fios elétricos desencapados, mas que nos acordam para a vida verdadeira.

E é por isso que estou aqui, com esta gratidão parva, este reconhecimento de quem recebeu um presente sem saber quem foi o oferecido. Tu deste-me palavras quando eu precisava delas. Deste-me personagens que são mais reais que muitos dos meus conhecidos. Deste-me aquela tua capacidade de olhar para o absurdo e não desviar o olhar, de ficar ali, a fitá-lo, até ele se transformar em literatura.

Sabes, Antunes, a gente vive a fingir que as pessoas importantes são as que estão perto. Os amigos do almoço, os colegas do elevador, a família que nos atura os defeitos. Mas não. As pessoas que verdadeiramente nos mudam são muitas vezes estas: as que nunca vimos. As que nos chegam pelo cheiro do papel, pela voz que imaginamos ao ler uma frase em voz alta, pela comoção que nos aperta a garganta quando viramos a última página.

Tu ensinaste-me que a memória não é um álbum de fotografias arrumado, mas sim um monte de fotografias rasgadas que a gente tenta juntar com os dedos trêmulos. Que os afetos são mais fortes nas ausências do que nas presenças. Que as pessoas que amamos continuam conosco não como fantasmas que assustam, mas como sombras que aquecem.

E pensar que nunca conversamos! Que nunca te disse como tua frase sobre o escuro me fez companhia numa noite difícil. Que nunca te agradeci por teres posto em palavras aquilo que eu sentia mas não sabia dizer. Essa é a grande injustiça da literatura: os escritores dão a vida inteira a quem não conhecem, e morrem sem saber quantas vidas salvaram.

Não, não é exagero. Salvar é a palavra certa. Tu salvaste-me de mim mesmo, desse tédio que às vezes nos consome, dessa sensação de que tudo já foi dito, de que a vida é apenas uma repetição absurda. Ao ler-te, percebi que o absurdo pode ser matéria-prima para a beleza. Que a ferida pode ser explicada com tal verdade que deixa de doer para passar a ser apenas uma cicatriz compreendida.

Lobo Antunes. Escrevo o teu nome como quem reza. Como quem faz uma lista de coisas que valeram a pena. Este mundo é uma confusão, bem o sabemos. Há dias em que tudo parece perdido, em que a estupidez humana me faz querer desistir. Mas depois lembro-me que exististe. Que existes. Que estás aí, provavelmente a olhar pela janela, a ver a luz a morrer sobre Lisboa, a pensar nos teus mortos.

E eu estou aqui, em Jampa, a pensar nos meus. Mas os meus mortos, Antunes, graças a ti, já não me assustam tanto. Tu ensinaste-me que eles não se foram apenas mudaram de quarto. Que continuam a respirar nas palavras que escrevemos, nos gestos que repetimos sem saber, no modo como olhamos para o mar.

Obrigado, meu caro. Obrigado por teres vivido. Por teres aguentado a porra da vida, com tudo o que ela tem de injusto e de violento, e por teres transformado essa aguentação em beleza. Obrigado pelas tuas frases intermináveis, pelas tuas vírgulas que são pausas para respirar fundo, pelos teus pontos finais que chegam sempre demasiado cedo.

Um dia, talvez nos encontremos. Talvez seja num café, talvez seja já do outro lado, nessa coisa que tu tão bem soubeste descrever sem nunca a teres visto. E nesse dia, Lobo, hei-de pedir uma bebida, sentar-me devagar, e finalmente poder dizer-te tudo isto cara a cara.

Até lá, fica sabendo: a minha existência não seria a mesma sem a tua. E isso, num mundo onde nos convencemos de que somos todos estranhos, é talvez a única coisa que realmente importa.




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