Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

A PONTE DE CORDA E O PIANO


Por: | 16/03/2026


   Nesta semana, uma série de eventos voltou a levantar dúvidas sobre o atual estágio da relação entre os líderes das duas maiores democracias do hemisfério ocidental. E, quando isso acontece, o mundo inteiro prende a respiração, ainda que alguns finjam não perceber.

   Nos últimos dias, o Brasil condenou os ataques de Israel e EUA ao Irã; criticou e não aceitou pagar para participar do conselho de paz criado por Trump; membros do governo americano mencionaram a possibilidade de caracterizarem as facções criminosas PCC e CV como grupos narcoterroristas - o que ensejaria a possibilidade de intervenção de forças daquele país em solo brasileiro.

  Além disso, o governo americano abriu uma investigação sobre supostas práticas comerciais irregulares, o que colocaria no horizonte mais um tarifaço contra a produção nacional.

 Também há a recente ratificação da câmara de deputados paraguaia do acordo de cooperação com os EUA, para que juntos atuem em seu território, no combate ao narcotráfico na região. 

  Por último, Darem Beattie, conselheiro de assuntos sobre o Brasil, teve revogado o seu visto de entrada no nosso país. Decisão justificada porque Beattie, ao pedir o visto às autoridades brasileiras, omitiu a informação de que pretendia visitar o ex-presidente golpista, Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena em no presídio da Papuda.

  E sabemos que quando Brasília e Washington se olham atravessado, não é pouca coisa. Estamos falando de dois países que, apesar de histórias e temperamentos diferentes, carregam um peso político que ultrapassa seus próprios territórios. Um nasceu sob a sombra da revolução liberal do século XVIII; o outro cresceu no improviso tropical de um império que virou república quase sem aviso prévio.

   Por décadas, essa relação oscilou entre a tutela e a diplomacia cordial. Os Estados Unidos se habituaram a olhar para a América Latina como seu quintal pela janela da cozinha. O Brasil, por sua vez, sempre tentou se comportar como o vizinho educado: às vezes aceita o café, às vezes fecha o portão mais cedo.

   Mas a política mundial mudou de humor.

O que antes era tratado como divergência diplomática agora ganha contornos de disputa estratégica. Em Washington, discursos cada vez mais impregnados de segurança nacional, narcotráfico e terrorismo. Em Brasília, a tentativa de manter autonomia política sem parecer desafiador demais - tarefa comparável a um atravessar uma ponte de corda carregando um piano.

  Costumamos esperar que democracias maduras resolvam essas tensões com maturidade política. Porém, há um pequeno detalhe que costuma ser esquecido nos discursos elegantes da diplomacia: quando o capitalismo olha para o outro, ele raramente procura maturidade. Procura interesses.

Interesses não frequentam aulas de boas maneiras.

É nessa hora que entra um personagem silencioso, mas decisivo: a China. 

   Nos últimos anos, o gigante asiático transformou-se no principal parceiro comercial do Brasil, comprando commodities, investindo em infraestrutura e oferecendo mercados onde antes havia apenas dependência de rotas tradicionais.


Para Brasília, isso significou ampliar horizontes. Para Washington, significou um sinal de alerta.

Desde que Donald Trump decidiu ressuscitar sua velha promessa de “fazer a América grande novamente”, a política externa americana passou a tratar os parceiros da China com uma mistura de desconfiança e vigilância estratégica. Não importa se o país em questão é aliado histórico ou parceiro ocasional: aproximar-se demais de Pequim passou a ser visto como um gesto que exige explicações.

   Não se trata exatamente de ruptura diplomática. É algo mais sutil - e talvez mais eficaz. Pressões comerciais aqui, advertências estratégicas ali, discursos sobre segurança e tecnologia que, no fundo, dizem a mesma coisa: escolher a China pode ter custos.

O Brasil, naturalmente, entrou nesse radar.

 Afinal, quando a maior economia da América Latina aprofunda relações com o principal rival estratégico dos Estados Unidos, não estamos falando apenas de comércio de soja, minério ou tecnologia. Estamos falando de influência, de corredores logísticos, de redes digitais e de futuro geopolítico.

  A ironia é que ambos os países gostam de se apresentar como faróis democráticos. Norte-americanos fazem isso desde os tempos em que acreditavam terem sido escolhidos pela história para iluminar o mundo. Já o Brasil costuma afirmar sua vocação democrática com a esperança de que o futuro sempre será mais generoso que o passado.

O problema é que os faróis também iluminam rotas comerciais.

   Nos últimos anos, a política internacional virou uma arena em que líderes falam mais para suas plateias internas do que para os interlocutores externos. Assim, cada gesto diplomático vem acompanhado de um cálculo eleitoral. O que deveria ser política de Estado passa a parecer episódio de campanha.

É nesse teatro global, que as palavras ganham peso de ameaça, mesmo quando são apenas bravatas.

 Há também um fator psicológico curioso: a convivência entre um gigante acostumado a mandar e outro gigante que ainda está decidindo se aceita ou não esse papel. O resultado é uma relação feita de aproximações cautelosas, elogios protocolares e desconfianças silenciosas.

Como em muitas relações humanas, o problema não é a discordância. É a assimetria.

  Enquanto isso, o resto do continente observa com aquela mistura de preocupação e pragmatismo típica de quem mora em condomínio barulhento: se os dois apartamentos maiores começam a discutir no corredor, a noite promete.

  Assim, não devemos nos questionar se haverá maturidade política, uma vez que maturidade não costuma ser a linguagem do capital. Devemos questionar como nos posicionarmos diante do seguinte cenário: a exigência de Washington por lealdade e o oferecimento de Pequim de mais mercado e parcerias. Até onde conseguiremos, como país, nos equilibrar, entre os dois, sem cair da corda.

Penso que está na hora de abandonarmos a metáfora da corda bamba. O mundo já deixou de ser unipolar há algum tempo, mesmo que alguns ainda finjam não perceber. 

  Nesse cenário, aproximar-se da China não parece um gesto de provocação - parece, antes, uma decisão de sensatez estratégica.

Mas sensatez, em política internacional, exige coragem.

  Coragem para aceitar que o Brasil precisa agir como potência regional e não como eterno convidado nas mesas onde os outros decidem o destino do planeta. Coragem para entender que parcerias estratégicas se constroem olhando para o futuro, não apenas para antigas hierarquias.

Nesse sentido, a articulação com os países do BRICS deixa de ser apenas um fórum diplomático e passa a ser uma plataforma de soberania.

A soberania, no século XXI, não se mede apenas por território ou população. Mede-se por tecnologia, energia e capacidade estratégica.

  Mais cedo ou mais tarde, o Brasil terá de enfrentar uma decisão que vem sendo adiada há décadas: desenvolver, em cooperação com seus parceiros do bloco, uma política nuclear robusta, voltada à autonomia tecnológica, à segurança energética e à afirmação geopolítica.

  Não se trata de bravata militar. Trata-se de compreender que, num mundo organizado por interesses, países que não dominam as tecnologias decisivas acabam vivendo sob a sombra das decisões alheias.

   Eis a verdadeira encruzilhada brasileira: continuar tentando equilibrar-se entre pressões externas ou assumir, finalmente, a coragem política de escolher o próprio caminho.

(*) jornalista


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