Alessandra Del`Agnese
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Alessandra Del`Agnese

ELA FALA COMO HOMEM, MAS O CORPO DENUNCIA


Por: | 26/03/2026


  Ela sobe na tribuna. O microfone estala. Há um instante, antes do verbo, em que a câmera a enquadra de corpo inteiro: o tailleur bem cortado, o colar de pérolas que tenta lembrar alguém que ela não é, o batom na medida exata para não ousar demais. Ela respira fundo e, ao expirar, solta uma fala que não lhe pertence. É uma voz emprestada, um pensamento alugado, uma lógica que aprendeu a repetir para ser aceita na mesa onde os homens decidem.

   Damares Alves, a senadora que se autonomeou guardiã da moral e das famílias, agora sai em defesa da “liberdade de expressão” do movimento red pill. Sim, aqueles mesmos que tratam a mulher como problema biológico, como armadilha evolutiva, como ser de segunda categoria que só serve para validar o frágil ego masculino. Ela, mulher, levanta a bandeira de quem a reduz a um útero ambulante ou a um risco sentimental. Ela, mulher, usa a toga da política para dar palanque a quem acha que feminista é histeria coletiva.

     E aí nos perguntamos: o que faz uma mulher vestir a carapuça do opressor e desfilar com ela como se fosse um traje de gala?

    A resposta, meus caros, está na própria biografia. Damares aprendeu, desde cedo, que o poder neste país tem endereço, cheiro e, principalmente, gênero. Para chegar perto, para tocar na maçaneta das decisões, ela fez o que muitas são obrigadas a fazer: negociou a própria alma. Não bastava ser mulher; era preciso pensar como homem, falar como homem, reproduzir o discurso do homem para que ele, o homem, lhe estendesse a mão e dissesse “essa pode entrar”.

  Ela é o retrato trágico de quem conquistou espaço repetindo o discurso que a aprisiona. É a mulher que aprendeu a se odiar em nome da sobrevivência política. O movimento red pill, que ela agora protege, é a mesma lógica que, em outras épocas, justificava a tutela do marido sobre a mulher, a impossibilidade de votar, a necessidade de autorização para trabalhar. E ali está ela, sorrindo, como quem diz: “comigo é diferente, eu sou uma das boas”.

    Mas o corpo não mente. Por mais que a voz imite os barítonos do poder, por mais que as palavras sejam as mesmas que saem das bocas dos que a sustentam, há ali um silêncio que grita. Quando a sessão termina, quando os holofotes se apagam e ela volta para o apartamento funcional, há um momento em que o espartilho ideológico se desfaz. E nesse instante, o que sobra? Uma mulher sozinha com o eco das próprias palavras, tentando entender como foi parar do lado de fora da própria história.

    A luta atual das mulheres não é só por igualdade salarial ou pelo fim da violência doméstica. É, antes de tudo, pelo direito de existir sem ter que pedir licença. É pelo direito de ocupar o espaço sem precisar se vestir de inimiga. Damares, ao defender quem nos odeia, nos dá um presente amargo: o de nos lembrar que a misoginia também habita corações femininos, que a opressão é um vírus que se reproduz em qualquer hospedeiro disposto a abrir mão de si.

    E enquanto ela discursa em defesa dos red pills, do lado de fora, mulheres reais continuam sendo interrompidas, diminuídas, apagadas. Há uma mãe solo esperando creche, uma jovem sendo chamada de histérica por discordar do chefe, uma idosa que ouve “no meu tempo você não teria voz”. Essas são as que Damares, na sua travessia para o lado de lá, decidiu esquecer.

  Que fique o registro: há mulheres que lutam para que nunca mais uma mulher precise se anular para existir. E há aquelas que, infelizmente, são apenas uma assinatura feminina num texto escrito por homens. 


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