INTITULAR: A CAÇA SOLITÀRIA
João Batista de Brito
Quem escreve sabe: muitas vezes é mais fácil redigir o texto do que lhe encontrar o título adequado. E isso sem importar o gênero, se poema, conto, crônica, resenha ou ensaio. E quando se trata de intitular um livro inteiro, então!
Deve ser por isso que alguns títulos de livros publicados no mundo inteiro são tão insatisfatórios do ponto de vista estético. Pense nos grandes livros que você leu e recorde os títulos. Muitos são denotativos, em sua maioria antropônimos ou topônimos sem graça, ou então, termos pobremente indicativos do tema.
De mim para mim, sempre achei que a fantástica história desse Ulisses aventureiro e sua paciente Penélope merecia um título mais sugestivo. O mesmo se diga do tenebroso percurso de Dante, do inferno ao céu, ou das patéticas desventuras do cavaleiro da triste figura no encalço do seu remoto Toboso.
Tudo bem: antigamente a intitulação devia ser um procedimento documental, referencial e automático, mas a coisa não mudou muito com o passar do tempo.
Ana Karenina, Madame Bovary, Dom Casmurro, O primo Basílio, Os irmãos Karamazov, O grande Gatsby, Moby Dick, São Bernardo... Bem que essas obras magníficas mereciam títulos melhores do que esses insossos antropônimos/topônimos, vocês não acham?
“O vermelho e o negro”, de Stendhal já foi, no seu tempo, menos literal, mas também não fugiu à regra da referência temática, como, -- mais óbvios ainda e, para mim, sofríveis -- o “Crime e castigo” de Dostoievsky, o “Razão e sensibilidade” de Austen, ou mesmo o “Grandes Esperanças” de Dickens.
E o engraçado é que, mesmo quando se trata de poesia, discurso em princípio mais arrojado, a coisa não melhora tanto assim. Em terreno brasileiro, e para dar exemplos ao acaso, “Alguma poesia” e “Sentimento do mundo”, são, com certeza, títulos um pouquinho aquém da inventividade de Drummond. Com “A rosa do povo” e “Claro enigma” melhorou bastante.
Bem, tudo isso é somente para falar de um ou outro título que amo, de romance, peça, ou se for o caso, de filme -- raridades no meio da denotatividade predominante.
Alimento a impressão, sempre alimentei, de que o romance da escritora Carson McCullers é um pouquinho menos bom do que o título com que foi premiado, escutem só: “O coração é um caçador solitário”, o qual, traduzo para o português, mas que parece ser incrivelmente belo em todas as línguas. No original, “The heart is lonely hunter”, tem uma musicalidade diferente da nossa, mas sempre a tem, como a teria se fosse em francês: “Le coeur est un chasseur solitaire”. A um só tempo narrativo, evocativo, sonoro, poético, o título já faz a gente sonhar antes de ler o romance e possui uma autonomia de sentido e de plástica que o torna quase auto-suficiente. Fico pensando se McCullers o achou antes, ou se depois do romance concluído, se escreveu o romance por causa dele, ou se chegou a ele como se chega a uma “trouvaille”.
Outro de que gosto é o da peça de Tennessee Williams, “Doce pássaro da juventude” (“Sweet bird of youth”), também, creio, melhor que a própria peça, que é muito boa. “O inverno de nosso descontentamento” que Steinbeck deu a um de seus últimos romances vai nessa linha da sugestividade, embora, todo mundo sabe, tenha sido chupado do “Ricardo III” de Shakespeare, como o foi o também muito bom “O som e a fúria” de Faulkner, surrupiado de um trecho de “Macbeth”. O “Cem anos de solidão”, de Garcia Márquez, é outro título de romance que aprecio, sugestivo do espírito magicamente sombrio do livro.
Para incluir títulos do mundo cinematográfico, gosto do japonês “Contos da lua vaga” (Mizogushi), e do italiano “Vagas estrelas da Ursa” (Visconti). Escapando das geralmente traidoras re-intitulações brasileiras, adoro os americanos: “Days of wine and roses” de Blake Edwards (Dias de vinho e rosas), “Splendor in the grass” de Elia Kazan (Esplendor na relva, aliás, copiado de um verso de Wordsworth), e o perturbador “Reflections in a golden eye”, de John Huston (Reflexos num olho dourado).
Voltando aos livros, no meu caso pessoal acho que tive sorte com pelo menos dois títulos: “Imagens amadas” me parece conotar bem o amor pela sétima arte, e quanto ao recente “Pão com sabor de poesia”, o devo à caridade do amigo Humberto de Almeira, que me deu de graça.
Uma ironia: finda a redação desta matéria, fiquei um bom tempo pensando em que título lhe dar, e, confesso, não fosse a ajuda de Carson McCullers, estaria perdido.
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