Alessandra Del`Agnese
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Alessandra Del`Agnese

O TERÇO E O TAPA: UMA CRÔNICA DO NOSSO RIDÍCULO NACIONAL


Por: | 28/03/2026


     Eles estavam lá, na porta do teatro, em Belo Horizonte, com terços na mão e o ódio estampado na face. Gritavam para que Tiago Santineli se convertesse. Empurravam os bentinhos contra o peito dele como se fossem pequenas cruzes de uma nova inquisição ambulante. E a peça? A peça era sobre “Olodumare”, sobre a força das religiões de matriz africana, sobre a poesia do candomblé e da umbanda. Mas eles sabiam disso? Claro que sabiam. E foi exatamente por isso que foram.

   O espetáculo não era “do diabo”. O espetáculo era do outro. Do que eles não conseguem nomear, do que eles não conseguem rezar sem sujar a batina de intolerância. E no meio do tumulto, da provocação orquestrada, Tiago empurrou um rapaz. Um “playboyzinho”, como dizem os boletins de ocorrência informais da vida real, que rapidamente acionou o “papai importante” e a máquina do Estado. Resultado: o artista foi detido. O agressor, não. O violento, não. O verdadeiro espetáculo de agressão à democracia ficou impune, e o palhaço no melhor sentido da palavra, aquele que mostra a verdade pelo avesso foi parar na cela.

   Eis o impasse da democracia brasileira, meus caros. Não é um impasse jurídico. É um impasse existencial. É o impasse de um país onde a tática da desmobilização social aprendeu a usar o próprio direito como escudo para a barbárie.

  Filosoficamente, lembro de Hannah Arendt, que nos alertou para a banalidade do mal. Mas aqui, diante de nós, não temos nem a banalidade. Temos a atrevice estratégica. É o mal vestido de cidadão de bem, gritando “pai nosso” enquanto tenta calar o outro. Eles não estão ali para debater. Estão ali para fazer o que Neymar faz em campo: ciscar, colocar o corpo na frente, esperar o contato mínimo e, quando ele vem, cair como se tivesse levado um tiro, rolando no chão da história para cavar o cartão vermelho do adversário.

    É a política do “para-choque”. A estratégia é simples: fale do que não é o assunto. Pergunte o que não é a pergunta. Desvie. Quando o desesperado do outro lado o artista, o pensador, o deputado Glauber Braga sendo agredido no Congresso reage à provocação, o mundo se inverte: a vítima vira algoz, o intolerante vira vítima, e a lei, essa senhora de toga que deveria ser cega, pisca um olho para quem tem o sobrenome mais pesado no cartório.

O que fazer diante disso? Essa é a pergunta que ecoa no vazio do nosso tempo.

   Dobrar a aposta e bater de verdade? Sair na mão com quem empurra terço? Não, caro leitor. Aí eles vencem de novo. Eles querem o confronto físico porque sabem que a cena da violência é a única linguagem que a grande mídia e o algoritmo entendem. Eles querem que o teatro vire ringue, que a universidade vire quartel, que a Câmara vire lama.

  Contratar seguranças e blindar a arte? Fazer palácios sitiados onde a cultura sobrevive em guetos blindados? Isso é a morte do espaço público. É desistir da praça, devolvê-la para os donos do terço e da truculência.

   Pagar na mesma moeda da provocação online? Viver num eterno twitter de nervos à flor da pele, onde todo mundo se acha um justiceiro de teclado? Isso já estamos fazendo, e estamos perdendo. Porque enquanto a gente se esgoela em câmaras de eco, eles vão, um a um, ocupando as comissões, as secretarias, as delegacias.

  O impasse é grave porque tudo parece ridículo. E o ridículo, quando vira método político, é a coisa mais perigosa que existe. O fascismo, no século XXI, não usa bota de cano longo. Ele usa camisa de botão social, terço de prata e um argumento raso como um pires. Ele entra no teatro não para aplaudir, mas para perguntar por que o artista “odeia Deus”. Uma pergunta que não é uma pergunta, mas uma armadilha.

   Tiago Santineli foi detido por um empurrão. Mas quem o deteve foi a nossa própria covardia coletiva de não saber lidar com quem não quer debater, só quer destruir. A nossa dificuldade de entender que, para essa gente, a democracia é apenas um campo de batalha onde se usa a liberdade para tentar extingui-la.

    O antídoto? Não sei se tenho a receita. Não sou farmacêutica, sou cronista. Mas chuto que o antídoto começa com um gesto simples: parar de chamar isso de “opinião”. Não é opinião. É cerco. É impedir que o espetáculo aconteça. É transformar o diferente em demônio. E diante do cerco, a única saída não é se armar com pedras, mas se unir com corpos.

   É preciso mais corpos na porta do teatro do que terços. É preciso que a sociedade inteira entenda que quando um artista é levado algemado por reagir à intolerância, o artista somos nós. Que quando a fé vira instrumento de censura, o santo aí já perdeu a graça.

    Enquanto isso, o espetáculo continua. Eles estão lá, na porta, esperando o próximo contato para cair. A pergunta que fica é: vamos continuar jogando nesse campo viciado, ou vamos finalmente decidir mudar as regras do jogo antes que ele acabe em gol contra?

Porque a lei, essa tal de lei… a lei, por enquanto, ainda é feita por quem chora sentado no chão depois de ter começado a briga. E, se bobear, até o juiz vai dar falta.




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