Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

"TER CREPUI"


Por: | 02/04/2026


  Caminhávamos pela beira-mar de Fortaleza, há quase trinta anos, quando o tempo ainda parecia caber dentro de uma tarde. Eu e Fernanda paramos no antigo calçadão, que convidava o corpo a desafiar a idade, e resolvemos fazer alguns abdominais. Havia vento, havia sal no ar, havia uma certa dignidade no esforço físico que tentávamos sustentar.

  Foi então que, no meio da sequência, liberei três peidos — não tão discretos, diga-se de “passagem”— com uma sonoridade que, se não era musical, ao menos tinha ritmo. Como estávamos ao ar livre, considerei o episódio absorvido pela imensidão do oceano.

 Permaneci sério. Absolutamente sério. Fernanda, não. Dobrou-se em gargalhadas, que traem qualquer tentativa de compostura. Quem passava naquele instante talvez tenha atribuído a ela a autoria da façanha. Eu, impassível, segui firme no exercício. Depois, ela me brindou com alguns tapas no braço, não exatamente de reprovação, mas de incredulidade diante da minha solene indiferença.

    Era um tempo em que até um pum tinha peso social. Havia constrangimento, havia culpa difusa, havia um certo acordo “silencioso” de que nem tudo precisava ser exposto ao mundo. Hoje, não. Hoje há quem transforme flatulência em conteúdo, em performance, em moeda de atenção. E o mais curioso não é que alguém faça disso um espetáculo — é que haja plateia.

    A banalização, descobri, não começa nas grandes tragédias. Ela se instala sorrateira nas pequenas concessões, nos risos fáceis, no “deixa pra lá” que vira regra. Se um dia nos constrangíamos com o corpo, hoje exibimos o grotesco como se fosse medalha.

   E, ao naturalizar o ridículo, abrimos caminho para naturalizar o que é grave.

Porque o problema nunca foi o pum — coitado, sempre cumpriu sua função fisiológica com honestidade. O problema é o que veio depois. A transformação de qualquer coisa em espetáculo, a diluição dos limites, a perda do senso de proporção. Se tudo é conteúdo, nada mais é importante.

    Vivemos um tempo em que mentiras ganham a mesma cadeira que os fatos, em que a violência se torna estatística e a indignação dura o tempo de um scroll. Discursos de ódio são compartilhados como piadas. Ataques à democracia viram “opinião”. Tragédias ambientais se tornam pauta passageira, rapidamente substituída por um novo escândalo, uma nova dança, um novo absurdo.

 A lógica é simples e devastadora: quando tudo pode ser exposto, tudo pode ser relativizado. E, quando tudo se relativiza, o que deveria nos chocar apenas nos distrai.

  Lembro daquela tarde em Fortaleza e penso que talvez houvesse ali uma fronteira invisível. Eu, tentando manter a seriedade diante do inevitável. Fernanda, rindo da quebra do protocolo. Havia ainda um jogo entre o permitido e o constrangedor, entre o íntimo e o público.

   Hoje, parece que já não há fronteira alguma. E não é só o corpo que se expõe sem filtro — são valores, princípios, verdades. Tudo se dissolve na vitrine infinita onde o riso fácil vale mais do que a reflexão, e o escândalo, quando repetido demais, perde o poder de escandalizar.

 Seguimos, em nossa caminhada, fazendo nossos abdominais morais, tentando sustentar algum equilíbrio. Mas, ao contrário do vento da beira-mar, que levava embora o som indiscreto de três peidos, o que hoje se espalha não se dissipa. Fica, ecoa, contamina.

    E, enquanto rimos — às vezes sem perceber do quê —, o essencial vai sendo empurrado para o canto, como algo antigo, fora de moda, quase constrangedor.

Esse é o verdadeiro barulho do nosso tempo. Não o que escapa do corpo, mas o silêncio que se instala quando deixamos de reagir ao que realmente importa.

(*) jornalista


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