Areia de pote
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Tem mas tá faltando

Por: Francisco Gil Messias | 03/04/2026

Tem mas tá faltando


Francisco Gil Messias

gmessias@reitoria.ufpb.br


Nós, brasileiros, gostamos de achar graça na lógica dos portugueses e até fazemos piada com isso. Mas eles é que têm  motivo de fazer piada com a gente, na verdade. A lógica em Portugal, sabe-se, é rigorosa, talvez até demais para o nosso gosto de latinos informais, informais até demais, diga-se de passagem. Lá, o rigor geralmente é resultado de uma melhor formação educacional; aqui, a informalidade excessiva frequentemente decorre da falta de educação de muitos, da malandragem,  do descompromisso com a objetividade etc. Uma questão cultural, verdadeiramente. Lá, mais por excesso; aqui, mais por carência (e desleixo). 


Em Lisboa, um brasileiro abestalhado pergunta ao nativo se o Mosteiro dos Jerônimos é perto. O nativo responde: “Depende. Se vais de viatura, é perto; se vais caminhando, é longe”. Raciocínio perfeito e informação corretíssima. Dependendo do brasileiro, não duvido se ele ainda perguntar o que é viatura. Fosse aqui, o brasileiro provavelmente responderia vagamente, algo como: “Você vai direto toda vida, depois lá na frente dobra à direita, anda mais uns três ou quatro quarteirões, vira à esquerda e aí vai ver um prédio velho e grande – acho que é lá”. Se não for assim, é parecido. E esse “acho” diz tudo, ou seja, nada, pois dá a entender que, de fato, o informante não sabe exatamente do que está falando. Fosse eu no lugar do portuga, iria buscar informação em outro lugar. 


Outro dia, ao entrar em uma loja aqui na aldeia à procura de certo produto, o atendente   respondeu com a maior tranquilidade e até riu: “Tem mas tá faltando”. É uma joia de resposta, não é mesmo? Diz tudo sobre o rapaz e sobre o Brasil de nossos dias. Tem mas tá faltando: o suprassumo da falta de lógica, de objetividade e de pensamento racional. Acostumado a essas e outras, até achei graça – e saí repetindo comigo mesmo: Tem mas tá faltando. Alguns transeuntes que passaram por mim nessa hora devem ter pensado que eu era doido ou apenas um velho caduco. Imagine um estrangeiro ouvindo essa pérola de resposta…


O próprio país, ao longo da história,  retrata muito esse esdrúxulo “tem mas tá faltando”: tem muito espaço, muito território, mas milhões não têm onde morar; tem uma das maiores produções de alimentos do mundo, mas milhões não têm o que comer; tem uma das melhores medicinas do planeta, mas milhões morrem sem a devida assistência médica; e por aí vai, de contraste em contraste, como se a vergonha desses paradoxos não lhe dissesse respeito. Os governos passam, todos eles, e não resolvem os problemas. Avança-se um pouquinho aqui e acolá, mas as grandes questões estruturais não se resolvem. Até uma simples fila, a do INSS, ninguém consegue acabar.


Enquanto isso, Portugal vai avançando à vista de todos. É hoje um país em acelerado desenvolvimento econômico e social, plenamente integrado à União Europeia. Milhares de brasileiros estão indo viver lá,  em busca de uma qualidade de vida que não têm aqui. Claro que não encontrarão o paraíso, mas lá, parece, até a pobreza é mais fácil de suportar. Até meados do século XX o trânsito migratório era inverso: os lusitanos é que vinham ganhar a vida entre nós. Por que isso?


Outra coisa curiosa que o leitor já deve ter observado: quanto mais vende um produto mais ele se acaba rápido nas prateleiras das lojas. A gente pergunta por isso e por aquilo e o atendente responde tranquilamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo: “Vende muito, se acaba ligeiro”. Ora, meu Deus, se vende muito, então não deveria faltar nunca, o estoque deveria ser permanentemente renovado, não é mesmo? Nem para ganhar dinheiro se raciocina corretamente. E ainda têm o desplante de gozar com a lógica lusitana.


Tem mas tá faltando. Até quando ouviremos isso por aqui? No Brasil anda faltando tanta coisa que a gente nem sabe se ainda tem para repor. Vergonha na cara, honestidade, decência, cidadania e espírito público, por exemplo. São produtos fora das prateleiras nacionais. Neste caso, talvez nem seja correto dizer que tem mas tá faltando, simplesmente porque, de fato, não tem mesmo, até no estoque.        


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