Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

A ETERNIDADE NO BANCO DO JARDIM


Por: | 03/04/2026


    Existem quadros que não se penduram na parede. Eles nos penduram neles. O Corpo de Cristo Morto no Túmulo, de Holbein, é um desses. Trinta centímetros de altura, dois metros de comprimento: uma medida desconcertante, porque nos força a percorrer o corpo estendido como quem caminha sobre um abismo. Não há ressurreição ali. Não há promessa. Há apenas um homem, morto, de verdade. A boca entreaberta, os olhos vazios, as mãos que já não acolhem ninguém. Holbein pintou o que a fé tenta apagar: a absoluta humanidade do fim.

    Dostoievski, diante dessa tela em Basileia, ficou atordoado. Não era um espectador, era um condenado em visita à própria sentença. Sua mulher, Anna, viu o silêncio dele, aquele silêncio que pesa mais que grito. E ele voltou. Precisou voltar. Porque há visões que exigem ser revisitadas como feridas que a gente insiste em cutucar para saber se ainda dói.

   Dessa experiência nasce uma cena fundamental em O Idiota. O príncipe Míchkin, diante da mesma pintura, sente que a fé pode se chocar com a verdade até estilhaçar. E ali, naquele encontro entre a arte e o abismo, Dostoievski coloca a pergunta que não sai de nós: se nada nos é prometido, se o céu é silêncio e o túmulo é apenas um túmulo, ainda assim escolhemos a misericórdia?

   Nietzsche, claro, chamaria isso de “apenas tinta”. Para ele, a pintura de Holbein seria a confirmação de que Deus morreu de verdade, e que a compaixão é um resquício fraco de uma moral escrava. Mas Dostoievski não responde com teologia. Responde com a cena do banco. Aquela em que dois seres humanos se encontram à beira do nada e, mesmo sabendo que nada está garantido, um estende a mão ao outro. Não por recompensa. Não por salvação. Porque sim.

     E é aí que a crônica encontra o seu lugar. Não no tratado filosófico, não no sermão, mas naquele instante miúdo em que a vida insiste em fazer sentido sem nos dar explicação. É necessário ter a sensibilidade de quem entende que a grande questão nunca está nos púlpitos, mas nos bancos de jardim, nos olhares trocados entre um café e outro, nas mãos que se oferecem mesmo quando não há garantia de que serão aceitas.

  Hoje, ao caminhar pela cidade, vi um homem sentado sozinho num banco de praça. Não era um príncipe Míchkin, nem um Nietzsche. Era apenas alguém. Mas, por um instante, me lembrei de Holbein, de Dostoievski, da pergunta que não quer calar: se nada nos é prometido, você ainda assim escolhe a misericórdia?

  O homem levantou-se, acendeu um cigarro, olhou o movimento dos ônibus. Nenhuma resposta veio do céu. Nenhuma tinta desceu da tela. Mas ali, na fumaça que se dissolvia no ar, eu vi: a misericórdia não é uma certeza. É uma escolha de cada instante. E quem a faz, ainda que sem fé, já está tocando o que há de mais sagrado no mundo.

    Porque no fim, como bem sabia Dostoievski, não é a ressurreição que nos salva. É a compaixão no caminho até ela. Mesmo quando esse caminho termina numa sepultura de dois metros de comprimento.




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