Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa

Leo e Sandra

Por: | 04/04/2026

LETRA LÚDICA

Leo e Sandra

Leo Barbosa e Sandra Raquew S. Azevêdo, colunistas de A União, fazem, cada um, a sua recolha textual e lançam um livro. Aquele, O peso da borboleta (Campina Grande: Papel da Palavra, 2026); esta, O caminho invisível (João Pessoa: Marca de Fantasia, 2025). Saem, assim, da circunstância efêmera da página do jornal para a possibilidade mais duradoura do livro. E como isso é bom!
Livros assim passam pelo rigor dos critérios de seleção e escolha. Sinalizam para o fato de que certos textos devem permanecer abertos ao horizonte de expectativas do leitor, na medida em que encerram, na sua tessitura expressiva, ideias, sentimentos, valores e conceitos aptos a uma renovável investigação meditativa. À fragmentação e volubilidade da sintaxe jornalística se contrapõem, portanto, a concentração e a densidade da organização livresca. É como se os autores quisessem congelar o fluxo do tempo em função daquilo que lhes parece essencial. E como isso é bom!
Em O caminho invisível, título já de per si, rico e sugestivo, Sandra Raquew desenvolve o tema da viagem, eu diria, em três modulações, a saber: uma viagem geográfica, uma viagem interior e uma viagem verbal.
A geográfica, ditada pelos apelos de Portugal, inscreve-se no âmbito exterior das paisagens, dos lugares, dos ambientes, dos encontros e reencontros; das pessoas, dos afetos, ou seja, de tudo aquilo que atrai o olhar do viajante na sua relação sensível com o mundo, com os seres e com as coisas.
A interior se abre para um mergulho no oceano da subjetividade e traz, à tona, uma autora tocada pelos sortilégios da condição feminina, em seus conflitos íntimos, ambivalências, sonhos, ousadias, singularidade. Diria ser a mulher, em sua palpabilidade sensível, a protagonista dessa viagem histórica e existencial. Mais que protagonista, é a mulher, enquanto viagem ela mesma, que se projeta no tecido do texto e habita tempo e espaço, com sua presença forte e educativa.
A viagem verbal se constrói no âmbito das palavras, pois escrever combina com viajar. Sandra Raquew arruma a mala, organiza seus afazeres domésticos, demarca os passos de sua agenda e se lança ao mar das palavras, para fazê-las ecoar à luz do pensamento e aos sons e ruídos da emoção humana.
Toda viagem pressupõe a agulha do tempo. Dentro dos caminhos visíveis, há os invisíveis roteiros, os recados imprevistos do acaso, a sutileza de certos acontecimentos que a razão desconhece ou oculta. A viagem é também um tempo dissipado em outra cronologia. Mais que os dias, as horas, os minutos, importa o selo da duração afetiva. Aquele vestígio psíquico e emocional que descortina belezas e verdades imperceptíveis. Tudo isso, Sandra Raquew nos oferta com sua escrita delicada e reflexiva. Suas doze crônicas, aqui reunidas, são como doze passos para penetrarmos nos ritos da sabedoria.
Leo Barbosa, a seu turno, se não se compraz claramente com os motivos da viagem, não se deixa fixar, no entanto, num plano meramente sedentário. “O peso da borboleta” me parece metáfora perfeita para idear o fluxo plural dos movimentos. Sua temática é mais ampla e mais variada, embora algo o aproxime de Sandra Raquew no manejo das palavras. Penso ser o tom reflexivo do estilo, sempre atento ao ato de pensar, de lidar com ideias e conceitos, no sentido de medi-los e examiná-los numa perspectiva crítica e pessoal.
Se se reporta a coisas da literatura, se se volta para traços do cotidiano, se se refere ao tempo, ao amor, à maternidade; se se debruça sobre categorias como solidão, velhice, lugar de fala, sociedade homoafetada e produtos da prudência, entre outras, sempre o faz com o pensamento criativo e com a posição irredutível do educador. Isto é, como aquele que, ao lançar mão do poder das palavras, sabe da necessidade dos deslocamentos e das condensações, na lúcida apreensão dos fenômenos reais e simbólicos que nos cercam.
Nem tudo que se publica nos jornais é descartável. Colunistas e colaboradores deveriam ser mais atentos ao que pode “arder e perdurar”, como diria Borges, e, por isto mesmo, dar materialidade ao sonho de Mallarmé, de que tudo que existe deveria se transformar em livro. Leo e Sandra fizeram esta viagem. E como isso é bom!


FONTE: Facebook - Acesse

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