
O sábado santo é um dia esquecido. Uma espécie de corredor escuro entre o horror e a festa. As lojas abrem? Abrem sim, porque o capitalismo não tira feriado para respeitar a agonia de Deus. Mas quem parar um minuto, num instante de tédio no celular, vai sentir: há um buraco no ar. Um silêncio estranho, como se o mundo tivesse sido desligado da tomada.
Vamos combinar: a sexta-feira da paixão é uma novela mexicana de alto orçamento sangue, espinhos, gritos, um final digno de Oscar. O domingo de Páscoa é aquele comercial de margarina com coelhinhos de pelúcia e ovos de chocolate que custam o valor de um carro usado. Mas o sábado? Ah, o sábado ninguém filma. É o dia em que Deus ficou em silêncio. O corpo de Cristo está ali, frio, num túmulo emprestado. Os apóstolos? Trancados no cenáculo, não por fé, mas por medo. Pedro não está pensando em teologia, está pensando: “Neguei ele três vezes. E agora?” Judas já foi plantar batata-doce no outro plano. Maria, a mãe, deve estar olhando para a própria mão vazia, aquela mão que um dia segurou um menino que andava sobre a água.
E nós? Nós estamos igualzinho. Presos no nosso cenáculo de apartamento, rolando feed infinito, esperando um milagre que resolva tudo sem exigir nada da gente.
O sábado santo é a grande verdade filosófica que a Páscoa tenta maquiar com chocolate. É o vazio. É aquele momento entre o diagnóstico e a cura, entre o “você está demitido” e o novo emprego, entre o fim do amor e o recomeço. É o dia em que a esperança não é uma certeza, é um ato de insanidade. Você olha para o túmulo e pensa: “E se for só isso? E se a morte vencer?”
É nesse buraco que a vida de verdade acontece. Porque a ressurreição não é um truque de mágica. É uma consequência do silêncio. Quem nunca ficou num sábado santo aqueles dias em que o choro já secou no rosto e a raiva já cansou de bater na parede quem nunca ficou ali, sem forças nem para pedir, aprendeu a ressurreição errado.
Jesus desceu ao inferno, diz o credo. Mas o inferno não é fogo e chifrudo. O inferno é o silêncio de Deus. É a sensação de que sua oração bateu no teto e voltou. É o vazio do túmulo antes da pedra ser removida. E é ali, nesse abandono absoluto, que algo se refaz. A gente precisa descer pra subir. Precisa perder pra achar. Precisa calar pra ouvir o que realmente importa.
Hoje, olho para as pessoas na rua. Cada uma carrega seu sábado santo particular. A mãe que perdeu o filho para as drogas. O homem que foi traído pela própria saúde. A mulher que sorri no Instagram mas não dorme há meses. Todos esperando. Não uma ressurreição aos moldes bíblicos, com anjos e trovões. Mas uma ressurreição miúda: um afeto que volta, uma conta que fecha, uma noite de sono inteira.
A verdadeira simbologia do sábado de aleluia não é o coelho. É o ovo que parece morto, mas guarda vida. É o silêncio que antecede a palavra. É o deserto que antecede o encontro.
Hoje, me recuso a adiantar o ovo de Páscoa. Vou ficar aqui, nesse sábado vazio, sem fingir que já amanheceu. Vou ouvir o silêncio. Porque é dele que nasce sem alarde, sem holofote a única coisa que nunca morre de vez: a coragem de recomeçar.
E amanhã, se amanhecer, aí sim a gente grita. Mas por enquanto, fica quieto. O milagre está em gestação. E Deus, pela primeira vez, aprendeu a calar a boca para a gente aprender a escutar.
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