
Sabe uma coisa? Páscoa sempre me deixou com um pé atrás. Não por causa do sentido, mas por causa da encenação. Ovo de chocolate que a gente compra na pressa, coelho de pelúcia que vai parar no fundo do armário, e aquela obrigação sorridente de parecer feliz num domingo que, convenhamos, muitas vezes só quer ser um domingo.
Mas esse ano eu resolvi olhar diferente. Acordei, botei o pé no chão frio da cozinha, e vi meu pai passando margarina num pão amanhecido. Minha mãe, sem pressa, arrumava as flores num vaso quebrado que ela nunca jogou fora. E eu pensei: é isso. Páscoa não é o grande gesto. É o pequeno que insiste.
É a mão que segura a sua sem pedir nada em troca. É o silêncio depois de uma briga feia que vira perdão sem discurso. É a cadeira posta a mais na mesa, mesmo quando a gente já desistiu de esperar visita.
Hoje, de manhã, minha filha chegou com um ovo de colher que ela mesmo fez todo torto, vazando recheio pelo lacre. E estava tão perfeito que me deu vontade de chorar. Porque a beleza não está no que se compra, e sim no que se arrisca.
Então, se você está lendo isso, queria te dizer: respira. Tira o peso do “preciso ser feliz hoje”. A Páscoa já aconteceu no fato de você ainda estar aqui, tentando, remendando, amando torto mas amando.
Domingo de Páscoa é só um dia. Mas, feito ele, todo dia pode ser a pedra que rola.
Com o coração meio bagunçado, meio grato igual toda ressurreição de verdade.
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