Por: | 07/04/2026
LETRA LÚDICA
Hildeberto Barbosa Filho
A lagarta e o cuscuz
Literatura infantil, não creio que isso exista. No meu purismo epistemológico e na minha estética radical, a literatura (e outra arte qualquer) dispensa a vestimenta dos atributos na sua ontologia singular. O que importa, pelo menos para mim, nesse terreno movediço, é o cuidado com a palavra, o tratamento especial pelo qual possa, para daí, florir e comportar todos os sentidos na configuração da semântica. O cheiro, o tato, o paladar, o som e a visão, tudo misturado na clareira da estesia.
Aprecio sobretudo os textos que respeitam a fina sensibilidade e a inesperada inteligência da criança. “Criança também é gente”, eis o título de um livrinho saboroso, de Léa Lerner. Ou seja, criança sente, pensa, interpreta as coisas a seu jeito próprio, elastecendo a compreensão dos fatos e das emoções. Com elas se aprende muito.
Não fazê-las de idiotas, portanto, me parece um mandamento fundamental para aqueles ou aquelas que a tomam, a princípio, como destinatárias do seu texto. O compromisso com os valores humanos, o elemento lúdico, o critério da imaginação e da fantasia, enfim, a pavimentação do poético, devem, sim, lastrear a composição da escrita e das ilustrações, sem, contudo, instrumentalizá-los. Não é a boa nem a má intenção que garantem a literariedade.
Lendo as paraibanas, Rosinete Flor, em Era uma vez, Berenice (São Paulo: Lux, 2024), e Lizziane Azevedo, em Um cuscuz arretado (Campina Grande: Papel da Palavra, 2025), sinto que ambas, e cada uma a seu modo peculiar de lidar com os vocábulos e de captar os sinais do mundo, têm plena consciência do processo de criação.
Rosinete Flor investe no universo da floresta e faz de uma simpática lagartinha, “Berenice”, a protagonista da história. Do círculo estreito do casulo para a liberdade do mundo, o bichinho faz a sua trajetória cheia de altos e baixos, sinalizando, no entanto, para as mudanças essenciais do percurso. Quer no plano real, quer na dimensão simbólica. O motivo da solidariedade pontua o texto do começo ao fim, sem que o dispositivo da didática ou do moralismo contamine o recado da função poética.
Não li o seu primeiro livro, A fada ao contrário, titulo que me lembra Ana Maria Machado, com o seu História meio ao contrário, e vejo que a autora como que se inscreve nas tópicas tradicionais, no entanto, ousando, dentro de seus limites e condições, reinventar o seu legado.
Lizziane Azevedo, diferentemente, traça um roteiro mais próximo e ambienta sua história na zona rural, donde surgem ingredientes típicos de um modo de ser, de uma cultura particular e de uma linguagem específica em que o recorte regional se alia à magia do poético. Kiu, Lino e o avô são os três personagens em cena, submetidos ao imperativo da seca. O açude, a botija e o Cuscuz, “arretado”, sim, como que formam o cenário e movimentam o enredo.
Diz Lino: “- Kiu, vô tá tão fraquinho! Tá secando junto com o açude”. Para superar o drama da seca e a doença do avô, o narrador afirma que “Kiu e Lino plantaram os joelhos no chão e lançaram sementes de oração no coração da noite. Deus as colheria orvalhadas de lágrimas”. Verdade, eis uma prolepse que ilumina o texto, criando expectativa e esperança.
O melhor da escrita de Lizziane reside na seleção dos símbolos e no apelo mágico que eles podem oferecer. O cuscuz que se transmuta em água e, com essa água, enche o açude e cura o avô, nos remete para a força cósmica dos elementos, para a energia dos fenômenos naturais, que o pensamento de um Gaston Bachelard, por exemplo, eleva ao estatuto do sagrado. É forte, na escrita dessa campinense, a empatia para com seu locus originário. Digamos que brota dos emblemas da terra a singela poesia de seus nutrientes.
Da escritora já li os haicais de Panapaná e percebi seu talento face à tessitura do poema curto de linhagem oriental, embora, na sua voz, fizesse ecoar os sons típicos da alma brasileira. Nesse Um cuscuz arretado, a mesma temperatura lírica permanece, revelando uma sensibilidade humana capaz de se converter em sensibilidade estética.
De outra parte, se Edilza Florêncio e Juliana Aline enriquecem o tecido verbal na fábula de Rosinete Flor, com suas imagens coloridas, Flaw Mendes e Vitória Emilly, por sua vez, com suas coloridas imagens, reforçam o prazer literário de ler o livro de Lizziane Azevedo. Em ambos, deparo-me com a literatura, na sua genuína expressão. Uma literatura que serve aos de 6 e aos de 90. Isso me basta!