
Existem biografias que não pedem absolvição — só explicação.
Philippe Pétain não foi um acidente da história. Foi uma escolha. Já envelhecido, agarrou-se ao poder num dos momentos mais frágeis da França e, sob o verniz da ordem, conduziu o país ao colaboracionismo com a Alemanha Nazista. Instalado em Vichy, construiu um regime que trocou soberania por submissão, dignidade por conveniência e, sobretudo, verdade por propaganda.
Não havia grandeza nisso. Havia cálculo.
Pétain não precisava acreditar integralmente no nazismo para servi-lo. Bastava-lhe o poder, a manutenção de um círculo de influência e a adesão de gente disposta a transformar rendição em estratégia. Os colaboracionistas franceses foram essenciais: sem eles, a engrenagem não girava. Eram os tradutores locais de um projeto estrangeiro, os que davam verniz doméstico à dominação externa.
No Brasil contemporâneo, o colaboracionismo assume outra forma, mas preserva a mesma lógica. Ele se articula não apenas em torno de figuras internas, como Jair Bolsonaro, mas também em sintonia com interesses e visões que vêm de fora — especialmente do universo político orbitado por Donald Trump.
Não se trata de tanques cruzando fronteiras, mas de alinhamentos automáticos, quase reflexos condicionados. Narrativas importadas, guerras culturais replicadas, inimigos fabricados sob medida. O colaboracionista moderno não precisa de ocupação formal; ele internaliza a lógica do outro e a reproduz com fervor local.
Nesse cenário, símbolos passam a ser usados como atalhos emocionais. A Estrela de Davi, historicamente um emblema de fé, identidade e resistência do povo judeu, aparece muitas vezes deslocada de seu significado original. Em vez de representar uma tradição milenar marcada por perseguições e sobrevivência, é apropriada em discursos políticos que pouco têm a ver com essa história — transformada em ferramenta de legitimação, como se sua simples presença pudesse blindar qualquer projeto de poder contra críticas.
É um uso que distorce. Porque símbolos não são neutros, mas também não são escudos universais. Assim como em Vichy, onde a retórica patriótica escondia a submissão, aqui também se constrói uma narrativa de defesa de valores enquanto se importam agendas, estratégias e até inimigos.
O colaboracionismo brasileiro, nesse aspecto, não é apenas interno — é também uma forma de eco. E o eco, como sabemos, não cria som novo. Apenas repete.
Os colaboracionistas franceses acreditavam estar salvando algo da França. Os de hoje, no Brasil, também acreditam salvar algo — a pátria, a moral, a ordem. Mas, ao alinhar-se de maneira quase automática a interesses externos e ao instrumentalizar símbolos que carregam dores e histórias profundas, acabam revelando menos sobre o que defendem e mais sobre o que estão dispostos a ceder.
O recente discurso de Flávio Bolsonaro, durante a conferência conservadora CPAC no Texas, expôs isso de maneira cristalina. Diante de uma plateia da direita americana, ele pediu que os Estados Unidos exercessem “pressão diplomática” sobre o Brasil e suas instituições eleitorais, defendendo que o processo brasileiro se baseasse em “valores de origem americana”.
Não é um detalhe retórico. É um gesto político. Quando um agente nacional apela a uma potência estrangeira para intervir — ainda que sob o eufemismo de “pressão” — ele cruza uma linha histórica conhecida. A mesma linha que separa o patriotismo da colaboração.
E, ainda, a sinalização de abertura — direta ou indireta — para que os Estados Unidos tenham acesso privilegiado às chamadas “terras raras” brasileiras, sob o argumento de reduzir a dependência americana da China, revela uma inversão inquietante.
O Brasil, detentor de riquezas estratégicas, passaria, se ele eleito presidente, a se comportar como fornecedor submisso em uma disputa que não é sua.
Não se trata de cooperação internacional — que é legítima e necessária. Trata-se de assimetria.
Ao oferecer seus recursos como peça de reposicionamento geopolítico de outra potência, o país corre o risco de abdicar de uma política externa soberana, equilibrada, historicamente construída sobre o princípio da autonomia e da multipolaridade. Ainda mais quando essa movimentação ignora o fato elementar de que a China é, hoje, o principal parceiro econômico brasileiro.
Tal atitude evidencia que colaborar está muito longe da neutralidade. É sempre um gesto que envolve política, princípios morais e, sobretudo, é revelador. Revelador de quem, diante da pressão, escolhe resistir — e de quem prefere adaptar-se ao poder, mesmo que isso signifique ajudar a corroer aquilo que diz defender.
Colaborar, em qualquer tempo, é isso: uma escolha. E toda escolha deixa rastros e marcas.
(*) jornalista
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