
Ela tem 84 anos. Chama-se Dona Lulu. E está com uma medida protetiva desde 2021.
Não, caro leitor, você não leu errado. Não é 1621. É 2021. O século é 21. O calendário marca depois de Cristo, e antes da razão.
Dona Lulu é uma mulher-medicina. Guarani-Kaiowá. Conhece ervas. Parteja vidas. Reza. Cura. Existe. E por existir, incomoda. Incomoda tanto que neopentecostais a acusam de bruxaria. Tanto que sua casa de reza foi ameaçada. Tanto que seu território virou questão. Tanto que seu corpo já conheceu a violência física.
Agora me escute: isso não é arqueologia da ignorância. Isso é o jornal de hoje.
Nós gostamos de pensar que evoluímos. Que a fogueira ficou nos livros. Que a Inquisição acabou. Que não queimamos mais mulheres na praça pública. Mas será? O fogo mudou de forma, só isso. Antes era lenha e enxofre. Hoje é ameaça, exclusão, despejo, acusação, Estado ausente e fundamentalismo de palco.
E veja a astúcia da história: os nomes trocam, o roteiro permanece. Heresia ontem. Intolerância religiosa hoje. Mas a estrutura é a mesma: uma mulher que sabe das plantas. Uma mulher que as outras procuram. Uma mulher que não precisa de intermediário para falar com o sagrado. Isso sempre foi perigoso para os donos do poder.
Vamos cavar a raiz, porque cronista que se preza não enfeita a superfície.
A raiz não está só nos evangélicos radicais. Não está só no garimpeiro que invade terra indígena. A raiz está no medo ancestral que o patriarcado tem da mulher que não pede licença para existir. A mulher que cura ameaça o monopólio da dor. A mulher que reza ameaça o monopólio do sagrado. A mulher que sabe ameaça o monopólio do saber.
E aí, o que se faz? Caça-se a bruxa.
Só que hoje a caça tem outro verniz. Usa-se a fé como justificativa. Usa-se a propriedade como argumento. Usa-se o silêncio da sociedade como cúmplice.
Porque sim, você que está lendo este texto agora, talvez nem soubesse da história de Dona Lulu. Talvez vá até o final, concorde comigo, e amanhã não compartilhe nada. O silêncio, meu caro, também é uma fogueira. Mais fria, mas igualmente fatal.
A Defensoria Pública do Mato Grosso do Sul fez um laudo antropológico. Garantiu a ela proteção desde 2021. E desde então, o que mudou? O que mudou na vida de Dona Lulu? O que mudou na cabeça de quem a ameaça? O que mudou na sua cabeça?
O caldeirão está no fogo. E não é só o dela. É o de todas as mulheres que ainda guardam memória do que a cidade grande esqueceu: que a terra tem dono original, que as plantas têm nome, que o parto é sagrado, que a cura não vem só de receituário branco.
Este texto não é para ser bonito. É para queimar. Não a Dona Lulu. A sua consciência.
Porque enquanto uma mulher de 84 anos precisa de medida protetiva para continuar rezando na própria casa, a Idade Média não passou. Só colocou terno, gravata, microfone de púlpito e horário na TV.
E aí, vamos continuar calados?
Compartilhe. Porque visibilidade também é proteção. E silêncio, meu caro, sempre foi aliança com o carrasco.
Fogo na intolerância. Paz para Dona Lulu.
E que o caldeirão ferva até virar consciência.
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