Quais os poetas de língua portuguesa mais lidos no mundo?
Foi na internet que me deparei, tempos atrás, com uma curiosa matéria que fornecia estatísticas sobre a recepção mundial à poesia luso-brasileira. Não confio em pesquisas internéticas, mas de todo jeito, na ocasião anotei o que li, para posteriores considerações.
Segundo esse levantamento virtual, os três poetas mais lidos no território dos países lusófonos seriam: em primeiro lugar, Augusto dos Anjos; em segundo lugar, Fernando Pessoa; em terceiro lugar, Luís de Camões.
E Drummond? E Cecília? E Bandeira? Bem, a pesquisa só fornecia os nomes dos três mais lidos, e os três mais lidos seriam aqueles, e só aqueles, como pode?
Imagino que, para os portugueses, esse levantamento virtual deve ter soado como uma tremenda fake news. Para nós brasileiros, talvez nem tanto. Ouso imaginar que, para o leitor paraibano, ela deve soar como a verdade mais verdadeira do mundo.
Fake ou não, essa estatística poética me deixou excitado. Passei uns dias brincando com ela, querendo lhe atribuir consequências. Tanto que terminei por imaginar uma cena no céu, uma cena em que os três poetas contemplados se encontrassem.
Vamos supor que o local do casual encontro seja um barzinho – e não me venham com essa conversa fiada de que não há bares no céu. Tudo bem, para agradar aos portugueses, digamos que o cenário seja uma tabacaria.
Fernando é um frequentador assíduo da tabacaria, e é numa de suas mesas que ele concebe e rabisca alguns dos seus melhores textos.
Mas Augusto, vez ou outra, também aparece, para tomar um café ou degustar um chocolate quente. Nada de álcool, que sua saúde frágil não permite.
De início, sentam em mesas separadas, distantes um do outro, e, tímidos como são, mal se cumprimentam.
Com o passar das tardes, porém, os respectivos isolamentos chamam a atenção de cada um, e, de um discreto cumprimento, passam a um papo e, finalmente, à partilha da mesma mesa.
Inevitavelmente, passam a partilhar poemas, títulos de livros preferidos e coisas do tipo, cada um surpreso de constatar as eventuais afinidades eletivas – afinal de contas, como se sabe, solidão, tristeza e desassossego são temas caros a ambos. E, sim, uma certa metafísica ao mesmo tempo desiludida e esperançosa...
Com respeitosa discrição, as divergências também vêm à tona. Augusto não simpatiza muito com os versos livres de Fernando, e este, por sua vez, acha que há métrica demais nos poemas do colega.
Uma discordância maior tem a ver com o que a gente chama hoje de Eu Lírico.
Fernando acha Augusto um tanto monolítico, egocentrado, sem espaços para a outridade. Mutatis mutandis, Augusto acha Fernando disperso demais, múltiplo demais, com tantas máscaras que a persona poética se dilui. E pergunta, meio incomodado, de onde vêm e para onde vão esses Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e outros eus intrometidos?
Augusto tem certa dificuldade em entender o conceito de poeta como fingidor, e Fernando estranha o realismo cru de seus versos íntimos, como também o seu apelo sistemático a termos científicos.
E alguns outros aspectos técnico-estilísticos e temáticos são discutidos, cada um defendendo o seu ponto de vista com educada veemência.
Estão envoltos nessa conversa poética quando veem entrar um senhor idoso, de ar empolado, paramentado em uma vestimenta arcaica, com uma gola bordada que lhe esconde o pescoço, folhas douradas ao redor de sua cabeça grisalha. Mal adentra o recinto, esse senhor de ar altivo não dá três passos e sofre uma queda: esbarra numa cadeira à sua frente, e vai ao chão com cadeira e tudo. Levanta-se, célere, sem perder a nobreza da compostura.
Logo se percebe o que causou a queda: um olho cego, que mesmo sem tapa-olho, é bem ostensivo, porque completamente ocluso. De súbito, Augusto e Fernando, fascinados, o reconhecem: é ninguém mais nem menos que o épico Luís Vaz de Camões.
A presença desse cânone da literatura portuguesa e universal deixa os dois poetas nervosos, inquietos, ansiosos, perturbados, sem saber o que fazer, ou o que dizer.
Por um instante, Fernando faz menção de levantar-se e, humildemente, dirigir-se até a mesa do superlativo autor de “Os Lusíadas”, porém – como se diria naquela época, ou em qualquer época - não ousa passar além da Taprobana.Jo