Pensamentos Provisórios
Hildeberto Barbosa Filho
Devo ser mesmo um animal da Idade Média.
Tenho uma ardorosa paixão pelos inventários e pelas coleções. Adoro juntar coisas as mais díspares e imaginar esquemas ordenativos de experiências, situações, fenômenos os mais insólitos. Se no tesouro de Carlos IV da Boêmia, por exemplo, se encontrava o crânio de Santo Alberto e um espinho da coroa de Jesus; se no acervo do duque de Berry, tinha um elefante empalhado e um chifre de unicórnio, segundo me informa o semiólogo Umberto Eco, disponho, em um dos meus relicários de objetos inúteis, de uma espora de prata que pertenceu a meu bisavô; de uma miniatura de escapulário com a efígie do Padre Cícero, de 1914; de uma mecha dos cabelos da égua Turmalina em que montava quando menino; de um novilho de osso que me custou os olhos da cara; de um dedal de ouro trazido de Toledo; de uma pedrinha da cor de algodão que achei às margens do Ganges. Cultivo, também, e com certa luxúria, uma ruma de sonhos que se repetem nas minhas noites devastadas. O sonho de ser um rei solitário de um antigo país chuvoso, como nos versos de Baudelaire; o sonho de morar nos subúrbios de Pasárgada, dentro do poema de Manuel Bandeira; o sonho de percorrer as muralhas da China com as últimas fábulas de Herman Hesse; o sonho de entrar na máquina do tempo e me ver sob as abóbadas de um templo medieval. Coleciono quase tudo. Talvez exista, em mim, algum vestígio de uma consciência ancestral e poderosa a tentar, desesperadamente, imprimir uma ordem especial e sublime aos materiais do mundo. Uma luta agônica para salvar tudo o que se submete à fúria incontornável do tempo. Afinal, como dizia Pitágoras, há um Deus dentro de todas as coisas.
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário