
Imagem meramente ilustrativa, copiada de aventurasnahistoria.com.br
Na segunda metade dos anos 1960, o Liceu Paraibano estava saturado de alunos. As suas classes não eram suficientes para atender à demanda de alunos, muito grande, pois o seu ensino era de alta qualidade.
A Secretaria de Educação, então, criou colégios estaduais em diversos bairros da capital. Assim, surgiram o Colégio Estadual de Jaguaribe, o Colégio Estadual da Torre, o Colégio Estadual de Tambiá e o Colégio Estadual do Roger. Este último funcionou nas dependências do antigo Convento dos Franciscanos, que era exatamente por trás e contíguo à centenária Igreja de São Francisco, porém voltado para o bairro do Roger.
Numa das classes da 4ª Série Ginasial estudavam figuras impagáveis: Cocada, Belo, Major, Porciúncula, Ferrolho e Rosinha, que era o apelido de um grande colega. Certa manhã, resolveram gazear a próxima aula, pois era muito chata. Para não serem pegos, penetraram no fundo da igreja. E pareceu que haviam atravessado um portal do tempo: muitos objetos antigos, muitas imagens de santos, muitos livros, tudo espalhado e mal iluminado.
Acharam aquilo fascinante e resolveram explorar. Foi quando um deles se lembrou… Do túnel! Pois reza uma lenda que existe um túnel subterrâneo ligando a Igreja de São Francisco ao forte de Santa Catarina… Em CABEDELO! Isso mesmo, o porto de Cabedelo, a 19 quilômetros da vetusta igreja!
Assim, não faltou motivação para os seis colegas. Com cuidado para não chamar a atenção, desceram para o térreo, e começaram a explorar, sala por sala, capela por capela, sacristia por sacristia. Até no átrio procuraram. E nada do túnel. Voltaram para as suas classes decepcionados. Mas quando, na hora do recreio, os colegas perguntaram onde é que estiveram, responderam:
– Procurando o túnel.
– E acharam?!
– Achamos!
Perguntados o que encontraram lá dentro, responderam com uma molecagem: “Encontramos a Mulher de Branco da Lagoa, O Tarado do Compasso, o famigerado bandido Pedro Corredor, A Santa que Chorou em Jaguaribe e o Frade Sem Cabeça, que matou a amante numa das fontes de João Pessoa”.
Claro que ninguém acreditou. Todos personagens do folclore da Capital, os “encontrados” pelos nossos amigos no interior do lendário Túnel da Igreja de São Francisco fazem parte das lendas locais.
A Santa que Chora surgiu no bairro de Jaguaribe, nos anos 1960. Quando a notícia se espalhou, vieram romarias de tudo o que é canto, para ver o “milagre”. Porém, após algum tempo descobriram que era vigarice dos seus proprietários, para explorar a fé alheia.
Pedro Corredor foi um assaltante que agiu na periferia da Capital e virou lenda. De um simples ladrão foi transformado num bandido monstruoso, pelo radialista famoso Enoch Pelágio. Até que foi vítima de uma caçada implacável que uniu a Polícia Militar, a Polícia Civil e a Polícia Federal.
O Tarado do Compasso foi um mito que assombrou as moças que passavam pela Lagoa, espetando as bundas delas com um compasso usado em aulas de desenho. Dizem que o Tarado do Compasso era o próprio Enoch Pelágio, que o divulgava em seu programa de rádio.
O Frade Sem Cabeça existiu, segundo o jornalista e escritor Petrônio Souto. Baseado em pesquisa de Octacílio Nóbrega de Queiróz, Petrônio publicou na biblioteca virtual Ambiente de Leitura Carlos Romero o excelente artigo O Frade Sem Cabeça.
Conta Petrônio que um religioso que morava no Convento dos Franciscanos, de nome frei José de Jesus Cristo Maria Lopes, apaixonou-se por uma moça e tomava com ela, tarde da noite, banhos na Fonte dos Milagres, perto da Ladeira de São Francisco. Mas um dia descobriu que a sua amante o traia. Uma noite, marcou um encontro com ela na fonte e, auxiliado por dois comparsas, matou-a de forma bárbara, com muita crueldade. Depois foi preso, condenado e matou-se na prisão. E voltou para assombrar as ruas do nosso centro antigo, à noite.
A lenda da Mulher de Branco da Lagoa foi muito popular, naquela época. Certa noite, um chofer de praça estava cochilando de madrugada, no ponto de táxi da Lagoa, quando acordou com a porta traseira batendo. Olhou para trás e viu uma linda mulher, toda de branco, sentada. Perguntou-lhe para onde iria, e ela respondeu: “Para o Elite Bar, na praia”. O taxista guiou ao longo da avenida Epitácio Pessoa. Quando chegou no destino, olhou para trás e tomou um tremendo susto: não tinha ninguém!
O nosso querido e saudoso amigo Aubelúsio, de Misericórdia, foi outra vítima da Mulher de Branco da Lagoa. Certa noite ele ia passando pela Lagoa, quando encontrou uma mulher vestida de branco, sentada num banco. Muito bonita, ela pediu-lhe um fósforo para acender o cigarro. Ele baixou-se para acender o fósforo. Quando levantou a cabeça, ela havia desaparecido. Contam que Aubelúsio chegou trêmulo, apavorado, a uma Delegacia, para contar a história.
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Foram esses os mitos que os nossos colegas “encontraram” no interior do túnel da Igreja São Francisco. Mas, não satisfeitos, endossaram com essa, ampliando a mentira: “Vocês sabem quem estava lá no túnel da Igreja São Francisco? Monga, a Mulher Que Vira Macaco, na Festa das Neves!”.
“E o que é que ela estava fazendo lá?” perguntaram os colegas. “Ela nos contou que é lá no túnel da Igreja de São Francisco que ela fica morando, entre uma festa e outra!” Os descobridores do lendário “túnel” foram salvos pela campainha encerrando o recreio. Mais um pouco, seriam linchados.